Quando unir-se e quando dividir-se, eis a questão, e
uma resposta abalizada exige a sabedoria de um Salomão.
Alguns resolvem o problema de maneira simples e
prática: Toda união é boa e toda divisão é má. Muito fácil. Mas esta maneira
simplista de tratar do assunto ignora as lições de história e se esquece das
profundas leis espirituais que regem a vida do homem.
Se os homens bons desejassem a união e os maus a
divisão. ou vice-versa, isso simplificaria as coisas para nós. Ou se pudesse
ser mostrado que Deus sempre une e o diabo sempre divide, seria fácil encontrar
nosso caminho neste mundo confuso. Mas as coisas não são
assim.
Dividir o que deve ser dividido e unir o que deve ser
unido faz parte da sabedoria. A união de elementos heterogêneos jamais é boa
mesmo que possível, nem a divisão arbitrária de elementos semelhantes. Isto se
aplica certamente tanto às coisas morais e religiosas, como às políticas e
científicas.
Deus foi quem fez a primeira divisão, quando separou
a luz das trevas no momento da criação. Esta divisão estabeleceu a regra para
todo o comportamento divino na natureza e na graça. A luz e as trevas são
incompatíveis. Tentar ter ambas no mesmo lugar ao mesmo tempo é tentar o
impossível e o resultado será sempre nulo, nem uma nem outra, mas obscuridade e
escuridão.
No mundo dos homens, atualmente são poucos os
contornos que se destacam. A raça acha-se decaída. O pecado trouxe confusão. O
trigo cresce junto com o joio, as ovelhas e os cabritos coexistem, as terras
dos justos e injustos ficam lado a lado na paisagem, a missão tem o bordel como
vizinho.
As coisas, porém, não serão sempre assim. Está
chegando a hora em que as ovelhas serão separadas dos cabritos, o joio do
trigo. Deus dividirá novamente a luz das trevas e todas as coisas se agruparão
segundo a sua espécie, O joio irá para o fogo junto com o joio, e o trigo para
o celeiro com o trigo. A névoa se levantará como acontece com a neblina e todos
os contornos surgirão nítidos. O inferno será sempre reconhecido como inferno
e o céu irá revelar-se como o lar de todos os
que possuem a natureza do Deus
único.
Aguardamos com paciência essa hora. Enquanto isso,
para cada um de nós e para a igreja onde quer que apareça na sociedade humana,
a pergunta repetida deve ser: Com o que devemos unir-nos e do que separar-nos?
A questão de coexistência não existe aqui. O trigo cresce no mesmo campo com o
joio, mas deve haver polinização mútua entre eles? As ovelhas pastam junto aos
cabritos, mas devem procurar cruzamento entre as espécies? Os injustos e os
justos gozam da mesma chuva e do mesmo sol, mas devem esquecer suas profundas
diferenças morais e casar-se?
A resposta popular a estas perguntas é afirmativa.
Unir-se sempre e os homens serão irmãos apesar de tudo. A unidade é tão
preciosa que preço algum é demasiado para alcançá-la e nada é suficientemente
importante para manter-nos separados. A verdade é sufocada para celebrar a
festa de casamento do céu e do inferno, e tudo isso a fim de apoiar um conceito
de unidade que não se baseia na Palavra de Deus.
A igreja iluminada pelo Espírito não aceita isso. Num
mundo caído como o nosso a unidade não é um tesouro que deva ser comprado ao
preço da transigência. A lealdade a Deus, a fidelidade à verdade e à
preservação de uma boa consciência são jóias mais preciosas do que o ouro de
Ofir ou os diamantes extraídos da mina. Por causa dessas jóias homens sofreram
a perda de propriedades, a prisão e até a morte; por elas, mesmo em épocas
recentes, por trás das várias cortinas, os seguidores de Cristo pagaram até o
último centavo o preço de sua devoção e morreram silenciosamente, desconhecidos
e não aplaudidos pelo grande mundo, mas conhecidos de Deus e caros ao seu
coração paterno. No dia em que forem declarados os segredos de todas as almas,
eles irão apresentar-se para receber as obras feitas no corpo. Esses são
certamente filósofos mais sábios do que os seguidores religiosos da unidade sem
significado, que não possuem coragem suficiente para colocar-se contra as modas
correntes e que clamam por irmandade só porque tal coisa acha-se no momento em
foco.
"Divida e conquiste" é o refrão cínico dos
líderes políticos maquiavélicos, mas Satanás sabe também como unir e
conquistar. A fim de colocar uma nação de joelhos o ditador em potencial
precisa primeiro uni-la. Através de apelos repetidos ao orgulho nacional ou à
necessidade de vingar-se de alguma injustiça passada ou presente, o demagogo
consegue unir a população à sua volta. Depois disso é fácil dominar os
militares e submeter o legislativo. Segue-se então, na verdade, uma unidade
quase perfeita, mas trata-se da unidade do curral ou do campo de concentração.
Vimos isto acontecer várias vezes neste século, e o mundo irá vê-la uma vez
mais quando as nações da terra se unirem sob o Anticristo.
Quando as ovelhas confusas começam a cair num despenhadeiro,
a ovelha que quiser salvar-se individualmente precisa separar-se do rebanho. A
unidade perfeita em tal momento só pode significar destruição total para todos.
A ovelha sábia, para salvar sua própria pele, se afasta.
O poder se encontra na união de coisas homogêneas e
na divisão das heterogêneas. Talvez aquilo que precisamos nos círculos
religiosos de hoje não seja mais união, mas uma certa divisão sábia e corajosa.
Todos desejam a paz, mas pode ser que o reavivamento use a espada.
A.W.Tozer
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