sábado, 2 de novembro de 2013

O Que Significa Aceitar Cristo



Poucas coisas, felizmente poucas, são assuntos de vida e morte, tal como uma bússola para uma viagem marítima ou um guia para uma viagem através do deserto. Ignorar coisas assim vitais não é só lançar sortes ou correr um risco, mas puro suicídio; ou seja, estar certo ou estar morto.

Nosso relacionamento com Cristo é uma questão de vida ou morte, e num plano muito superior. O homem que conhece a Bíblia sabe que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores e que os homens são salvos apenas por ele sem qualquer influência por parte de quaisquer obras meritórias deles.
Tal coisa é verdadeira e sabida, mas a morte e ressurreição de Cristo evidentemente não salvam todos de maneira automática. Como o indivíduo entra numa relação salvadora com Cristo? Sabemos que alguns fazem isso, mas é óbvio que outros não alcançam esse plano. Como é coberto o abismo entre a redenção provida objetivamente e a salvação recebida subjetivamente? Como o que Cristo fez por mim opera cm meu interior? Para a pergunta: "O que devo fazer para ser salvo?" devemos aprender a resposta correta. Falhar neste ponto não envolve apenas arriscar nossas almas, mas garantir o exílio eterno da face de Deus. É aqui que devemos estar certos ou per­der-nos para sempre.

Os cristãos '"evangelicais" fornecem três respostas a esta pergunta ansiosa: "Creia no Senhor Jesus Cristo", "Receba Cristo como seu Salvador pessoal" e "Aceite Cristo". Duas delas são extraídas quase literalmente das Escrituras (At 16:31; [o 1:12), enquanto a terceira é uma espécie de paráfrase, resumindo as outras duas. Não se trata então de três, mas de uma só.

Por sermos espiritualmente preguiçosos, tendemos a gravitar na direção mais fácil a fim de esclarecer nossas questões religiosas, tanto para nós mesmos como para outros; assim sendo, a fórmula "Aceite Cristo" tornou-se uma panacéia de aplicação universal, e acredito que tem sido fatal para muitos. Embora um penitente oca­sional responsável possa encontrar nela toda a instrução de que precisa para ter um contato vivo com Cristo, temo que muitos façam uso dela como um atalho para a Terra Prometida, apenas para descobrir que ela os levou em vez disso a "uma terra de escuridão, tão negra quanto as próprias trevas; e da sombra da morte, sem qualquer ordem, e onde a luz é como a treva".

A dificuldade está em que a atitude "Aceite Cristo" está prova­velmente errada. Ela mostra Cristo suplicando a nós, em lugar de nós a Ele. Ela faz com que fique de pé, com o chapéu na mão. aguardando o nosso veredicto a respeito dEle, em vez de nos ajoe­lharmos com os corações contritos esperando que Ele nos julgue. Ela pode até permitir que aceitemos Cristo mediante um impulso mental ou emocional, sem qualquer dor, sem prejuízo de nosso ego e nenhuma inconveniência ao nosso estilo de vida normal.

Para esta maneira ineficaz de tratar de um assunto vital, pode­mos imaginar alguns paralelos; como se, por exemplo, Israel tivesse "aceito" no Egito o sangue da Páscoa, mas continuasse vivendo em cativeiro, ou o filho pródigo "aceitasse" o perdão do pai e continuasse entre os porcos no país distante. Não fica claro que se aceitar Cristo deve significar algo, é preciso que haja uma ação moral em harmonia com essa atitude?

Ao permitir que a expressão "Aceite Cristo" represente um esforço sincero para dizer em poucas palavras o que não poderia ser dito tão bem de outra forma, vejamos então o que queremos ou devemos indicar ao fazer uso dessa frase.

Aceitar Cristo é dar ensejo a uma ligeira ligação com a Pessoa de nosso Senhor Jesus absolutamente única na experiência humana. Essa ligação é intelectual, volitiva e emocional. O crente acha-se intelectualmente convencido de que Jesus é tanto Senhor como Cristo; ele decidiu segui-lo a qualquer custo e seu coração logo está gozando da singular doçura de sua companhia.

Esta ligação é total, no sentido de que aceita alegremente Cristo por tudo que Ele é. Não existe qualquer divisão covarde de posições, reconhecendo-o como Salvador hoje e aguardando até amanhã para decidir quanto à sua soberania, O verdadeiro crente confessa Cristo como o seu Tudo em Todos sem reservas. Ele inclui tudo de si mesmo, sem que qualquer parte de seu ser fique insensível diante da transação revolucionária.

Além disso, sua ligação com Cristo é toda-exclusiva. O Senhor torna-se para ele a atração única e exclusiva para sempre, e não apenas um entre vários interesses rivais. Ele segue a órbita de Cristo como a Terra a do Sol, mantido em servidão pelo magnetismo do seu afeto, extraindo dEle toda a sua vida, luz e calor. Nesta feliz condição são-lhe concedidos novos interesses, mas todos eles deter­minados pela sua relação com o Senhor.

O fato de aceitarmos Cristo desta maneira todo-inclusiva e todo-exclusiva é um imperativo divino. A fé salta para Deus neste ponto mediante a Pessoa e a obra de Cristo, mas jamais separa a obra da Pessoa. Ele crê no Senhor Jesus Cristo, o Cristo abrangente, sem modificação ou reserva, e recebe e goza assim tudo o que Ele fez na sua obra de redenção, tudo o que está fazendo agora no céu a favor dos seus, e tudo o que opera neles e através deles.

Aceitar Cristo é conhecer o significado das palavras: "pois, segundo ele é, nós somos neste mundo" (1 João 4:17). Nós aceitamos os amigos dele como nossos, seus inimigos como inimigos nossos, seus caminhos como os nossos, sua rejeição como a nossa rejeição, sua cruz como a nossa cruz, sua vida como a nossa vida e seu futuro como o nosso.

Se é isto que queremos dizer quando aconselhamos alguém a aceitar Cristo, será melhor explicar isso a ele, pois é possível que se envolva em profundas dificuldades espirituais caso não expla­narmos o assunto.


A.W.Tozer

Esse Cristão Incrível


O esforço feito atualmente por tantos líderes religiosos para harmonizar o cristianismo com a ciência, a filosofia e tudo que é natural e razoável, não passa, a meu ver, de uma falha em entender o cristianismo e, julgando pelo que ouvi e li, falha também em compreender a ciência e a filosofia.
 
No âmago do sistema cristão encontra-se a cruz de Cristo com o seu paradoxo divino. O poder do cristianismo se encontra em seu repúdio ao comportamento dos homens decaídos e não em sua aceitação do mesmo. A verdade da cruz se revela em suas contra­dições. O testemunho da igreja é mais eficaz quando declara em lugar de explicar, pois o evangelho é dirigido à fé não à razão. O que pode ser provado não exige fé para a sua aceitação. A fé repousa sobre o caráter de Deus e não sobre as demonstrações de laboratório ou lógicas.

A cruz se destaca em franca oposição ao homem natural. Sua filosofia se opõe aos processos da mente não-regenerada. Foi com essa idéia em foco que Paulo afirmou com toda franqueza que a cruz é loucura para os que perecem. A tentativa de encontrar um ponto comum entre a mensagem da cruz e o raciocínio do homem decaído é tentar o impossível, e se persistirmos o resultado será uma lógica prejudicada, uma cruz sem significado e um cristianismo despido de poder.

Vamos agora sair da teoria e observar simplesmente o verda­deiro discípulo enquanto pratica os ensinamentos de Cristo e de seus apóstolos. Note as contradições:

O cristão acredita estar morto em Cristo, mas encontra-se mais vivo do que nunca e espera viver realmente para sempre. Ele anda na terra embora sentado no céu e apesar de ter nascido neste mundo, depois de sua conversão descobre que este não é o seu lar. Como o curiango(é uma ave,bastante comum, no Brazil e chamada de bacurau), que no ar é a essência da graça e formosura mas no chão mostra-se desajeitado e feio, o cristão também se destaca nos lugares celestiais, mas não se entrosa muito bem na sociedade em que nasceu.

O cristão logo aprende que, se quiser alcançar vitória como um filho do céu entre os homens da terra, não deve seguir os padrões adotados comumente pela humanidade, mas exatamente o sentido oposto. Para salvar-se, corre perigo; perde a vida a fim de ganhá-la e existe a possibilidade de perdê-la se tentar conservá-la. Ele desce para subir. Se se recusa a descer é porque já está embaixo, mas quando começa a descer está subindo.

É mais forte quando está mais fraco e mais fraco quando se sente forte. Embora pobre tem poder para tornar ricos a outros, mas quando se enriquece sua capacidade de enriquecer outros se esvai. Ele tem mais quanto mais dá e tem menos quando possui mais.

Ele pode estar, e no geral está, no alto quanto mais humilde se sente e tem menos pecado quanto mais se torna consciente do pecado. É mais sábio quando reconhece que nada sabe e tem pouco conhe­cimento quando adquire grande cultura. Algumas vezes faz muito quando nada faz e avança rápido ao manter-se parado. Consegue alegrar-se nas dificuldades e mantém animado o coração mesmo na tristeza.

O caráter paradoxal do cristão revela-se constantemente. Por exemplo, ele crê que está salvo agora, mas, não obstante, espera ser salvo mais tarde e aguarda alegremente a salvação futura. Ele teme a Deus, mas não tem medo dEle. Sente-se dominado e perdido na presença de Deus, todavia, não há lugar em que tanto deseje estar como nessa presença. Ele sabe que foi purificado de suas faltas, mas sente-se penosamente cônscio de que nada de bom habita em sua carne.

Ele ama acima de tudo alguém a quem jamais viu, e embora seja ele mesmo pobre e miserável, conversa familiarmente com Aquele que é o Rei de todos os reis e Senhor dos senhores, não percebendo qualquer incongruência nisso. Sente que de si mesmo é menos que nada, entretanto crê firmemente ser a menina dos olhos de Deus e que por sua causa o Filho Eterno se fez carne e morreu na cruz vergonhosa.
O cristão é um cidadão do céu, mostrando-se leal a essa cida­dania sagrada. Ele pode, porém, amar seu país neste mundo com tal intensidade de devoção comparável àquela que levou John Knox a orar:    Deus, dá-me a  Escócia ou morrerei."

Com entusiasmo aguarda entrar naquele mundo brilhante lá de cima, mas não tem pressa de deixar esta terra e mostra-se perfeita­mente disposto a esperar o chamado de seu Pai Celestial. Sente-se também incapaz de compreender por que o incrédulo deva conde­ná-lo por isso; tudo lhe parece tão natural e correto dentro das circunstâncias que não vê qualquer inconsistência nisso.

O cristão que leva a cruz é, além de tudo, um pessimista confirmado e um otimista que não pode ser igualado por ninguém mais neste mundo.

Quando olha para a cruz é um pessimista, pois sabe que o mesmo juízo que caiu sobre o Senhor da glória condena nesse ato único toda a natureza e todo o mundo dos homens. Ele rejeita qualquer esperança humana fora de Cristo pois sabe que o mais nobre esforço do homem não passa de pó edificado sobre pó.

Todavia, o seu otimismo é calmo e repousante. Se a cruz condena o mundo, a ressurreição de Cristo garante o triunfo final do bem em todo o universo. Através de Cristo tudo acabará bem e o cristão aguarda a consumação. Cristão incrível!



A.W.Tozer

A Autoridade Decrescente de Cristo nas Igrejas



Este é o fardo em meu coração e embora não reivindique para mim mesmo qualquer inspiração especial, sinto porém que este é tam­bém o fardo do Espírito.

Se conheço meu próprio coração é apenas o amor que me leva a escrever isto. O que deixo aqui por escrito não é o fermento ácido de alguém agitado por contendas com companheiros cristãos. Não houve conflitos. Não fui abusado, maltratado ou atacado por nin­guém. Essas observações também não são fruto de experiências de­sagradáveis que tenha lido em minha associação com outros. Minha convivência com a igreja que freqüento assim como cristãos de outras denominações sempre foram amigáveis, corteses e satisfatórias. Minha tristeza resulta simplesmente de uma condição que acredito achar-se quase  universalmente  presente  nas  igrejas.

Penso que devo também reconhecer que eu também me encon­tro bastante envolvido na situação que deploro aqui. Como Esdras em sua poderosa oração intercessória incluiu-se entre os malfeitores, faço o mesmo. "Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para le­vantar a ti a minha face, meu Deus: porque as nossas iniqüidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa cresceu até os  céus"  (Ed  9:13).

Qualquer crítica feita aqui a outros deve voltar-se contra mim. Eu também sou culpado. Isto está sendo escrito na esperança de que possamos todos voltar-nos para o Senhor nosso Deus e não pecar mais contra Ele.

Permita que declare a causa do meu fardo: Jesus Cristo não tem hoje quase nenhuma autoridade entre os grupos que se chamam pelo seu nome. Não estou me referindo aqui aos católico-romanos, nem aos liberais, nem sequer aos cultos quase-cristãos. Refiro-me às igrejas protestantes em geral e incluo aquelas que protestam mais alto que não se acham num declive espiritual, afastando-se de nosso Senhor e seus apóstolos, a saber, os "evangelicais".

Trata-se de uma doutrina básica do Novo Testamento que após a sua ressurreição o Homem Jesus foi declarado por Deus como sen­do Senhor e Cristo, e que Ele foi investido pelo Pai com absoluta soberania sobre a igreja que é o seu Corpo. Ele possui toda a auto­ridade no céu e na terra. Na hora oportuna Ele irá exercê-la plena­mente, mas durante este período na história Ele permite que esta autoridade seja desafiada ou ignorada. E justamente agora ela está sendo desafiada pelo mundo e ignorada pela igreja.

A posição atual de Cristo nas igrejas evangélicas pode ser com parada à de um rei numa monarquia limitada, constitucional. O rei (algumas vezes despersonalizado pelo termo "a Coroa") não passa em tal país de um símbolo agradável de unidade e lealdade, tal como uma bandeira ou hino nacional. Ele é louvado, festejado e sustenta­do, mas sua autoridade como rei é insignificante. De maneira nomi­nal lidera a todos, mas nas horas de crise alguém mais toma as de­cisões. Nas ocasiões solenes aparece em suas roupagens reais a fim de pronunciar o discurso insípido, incolor, colocado em seus lábios pelos verdadeiros senhores do país. Toda a situação pode não passar de um faz-de-conta inócuo, mas tem suas raízes no passado e nin­guém quer desistir dele.

Entre as igrejas evangélicas, Cristo não passa hoje de um Sim­ples símbolo, muito amado. "Todos Louvem o Poder do Nome de Jesus" é o hino nacional da igreja e a cruz sua bandeira oficial. Mas nos serviços semanais da igreja e na conduta diária de seus membros,  alguém  mais, e  não  Cristo,  toma  as  decisões.   Nas  ocasiões adequadas, permite-se que Cristo diga: ''Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados" ou "Não se turbe o vosso coração", mas no momento em que termina o sermão alguém toma a dianteira. Os que têm autoridade decidem quais devem ser os pa­drões morais da igreja, assim como todos os objetivos e métodos empregados para alcançá-los. Devido a uma organização longa e meticulosa, o jovem pastor recém-saído do seminário exerce hoje muitas vezes mais autoridade sobre a  igreja do que  Jesus Cristo.

Este artigo foi publicado pela primeira vez no "The Alliance Witness" a 15 de maio de 1963, apenas dois dias após a morte do Dr. Tozer. Ele foi, de certa forma, o seu discurso de despedida, pois expressava a preocupa­ção que ia em seu íntimo.

Cristo não só tem agora menos ou nenhuma autoridade, Ele tam­bém está perdendo cada vez mais a sua influência. Não diria que ela é inexistente, mas sim que é pequena e está diminuindo. Uma com­paração justa seria com a influência de Abraão Lincoln sobre o povo norte-americano. O honesto Abe continua sendo o ídolo do país. Seu rosto bondoso, austero, tão comum que chega a ser belo, aparece em toda parte. É fácil sentir os olhos cheios de lágrimas quando pensa­mos nele. As crianças crescem aprendendo histórias a respeito do seu amor. honestidade e humildade.

Mas depois de termos controlado nossas emoções, o que nos resta? Nada mais que um bom exemplo, o qual, à medida que re­trocede no passado se torna cada vez mais irreal e exerce uma influên­cia cada vez menor. Qualquer patife está disposto a vestir o casaco de Lincoln, preto e comprido. A luz fria dos fatos políticos nos Estados Unidos, o constante apelo a Lincoln por parte dos políticos não passa de uma piada cínica.
A soberania de Jesus não está de todo esquecida entre os cris­tãos. mas foi relegada ao hinário, onde toda responsabilidade em relação a ela pode ser confortavelmente descarregada num brilho de agradável emoção religiosa. No caso de ser ensinada como uma teo­ria na sala de aula, ela é raramente aplicada na vida diária. A idéia de que o Homem Cristo Jesus possui autoridade final e absoluta sobre toda a igreja e todos os seus membros cm cada detalhe de suas vidas é simplesmente posta de lado hoje como não sendo ver­dadeira pelos cristãos evangélicos de modo geral.

O que fazemos é o seguinte: aceitamos o cristianismo de nosso grupo como sendo idêntico ao de Cristo e seus apóstolos. As crenças, práticas, ética e atividades de nosso grupo são equacionadas com o cristianismo do Novo Testamento. O que quer que o grupo pense diga ou faça é bíblico, sem que façam perguntas. Presume-se que tudo que o Senhor nos pede é para ocupar-nos com todas as ativida­des do grupo; e, agindo assim, estamos cumprindo os mandamentos de Cristo.

No sentido de evitar a dura necessidade de obedecer ou rejeitar as claras instruções do Senhor no Novo Testamento, nos refugiamos na interpretação liberal das mesmas. A casuística não e propriedade exclusiva dos teólogos católico-romanos. Os evangélicos também sa­bem perfeitamente fugir das arestas aguçadas da obediência por meio de explicações sutis e complexas. Estas são feitas sob medida para a carne. Eles desculpam a desobediência, acomodam a carnalidade e neutralizam as palavras de Cristo. A essência de tudo é simplesmente que Cristo não poderia ter pretendido dizer o que disse. Seus ensi­nos, mesmo em teoria, são aceitos apenas depois de terem sido diluídos pela interpretação.

Cristo é porém consultado por um número cada vez maior de pessoas com "problemas" e buscado pelos que desejam paz de mente. Ele é largamente recomendado como uma espécie de psiquiatra espi­ritual com poderes notáveis para esclarecer os que estão confusos. Jesus é capaz de livrá-los de seus complexos de culpa e ajudá-los a evitar graves traumas psíquicos através de um ajuste suave e fácil à sociedade e a seu próprio id. Este Cristo estranho não tem natu­ralmente qualquer ligação com o Cristo do Novo Testamento. O ver­dadeiro Cristo é também Senhor, mas este Cristo tolerante não passa de um servo do povo um pouco mais graduado.

Suponho, todavia, que devo oferecer alguma prova concreta para apoiar minha acusação de que Cristo tem pouca ou nenhuma autori­dade hoje entre as igrejas. Vou fazer então algumas perguntas e a resposta às mesmas será a evidência.

Qual a diretoria da igreja que consulta as palavras do Senhor para decidir os assuntos em discussão? Quem estiver lendo isto e que já tenha feito parte de um quadro diretor, procure lembrar-se das vezes em que qualquer membro lesse as Escrituras para estabe­lecer um ponto, ou que qualquer presidente da reunião sugerisse aos irmãos que procurassem as instruções que o Senhor poderia dar-lhes num determinado assunto. As reuniões administrativas são geral­mente iniciadas com uma oração formal; depois disso o Cabeça da Igreja fica respeitosamente em silêncio enquanto os verdadeiros go­vernantes passam a agir. Quem quiser negar isto apresente evidência em contrário. Ficarei muito contente se isso acontecer.

Que comitê da Escola Dominical pesquisa a Escritura pedindo orientação? Não é verdade que os membros invariavelmente julgam que sabem tudo o que precisam fazer e que o único problema é descobrir meios eficazes para pôr seu plano em prática? Planos, re­gras, "operações" e novas técnicas metodológicas absorvem todo o seu tempo e atenção. A oração antes da reunião é no sentido de pedir ajuda divina para seus planos. A ideia de que o Senhor possa ter algumas  instruções  para  dar-lhes  nem  sequer  lhes  cruza  a  mente.
Quem se lembra de um presidente de assembleia ter levado a Bíblia para a mesa com ele a fim de realmente usá-la? Minutas, re­gulamentos, regras da ordem, etc., sim. Os mandamentos sagrados do Senhor, não. Existe uma absoluta diferença entre o período devocional e a sessão de negócios. O primeiro não tem relação alguma com o segundo.

Qual a entidade missionária no estrangeiro que realmente bus­ca seguir a orientação do Senhor como provida pela sua Palavra e seu Espírito? Todas pensam que fazem isso, mas na verdade apenas presumem que seus objetivos são bíblicos e pedem a seguir auxílio para alcançá-los. Podem até mesmo orar a noite inteira a Deus, a fim de que seus empreendimentos tenham êxito, mas Cristo é dese­jado como ajudante e não como Senhor. Os recursos humanos são projetados para alcançar fins tidos como divinos, A seguir estes se transformam em regras fixas e daí por diante o Senhor não tem sequer o direito de votar a favor ou contra.

Na organização do culto público onde se acha a autoridade de Cristo? A verdade é que o Senhor raramente controla um ser­viço hoje em dia, e sua influência é bem insignificante. Cantamos a respeito dE!e e pregamos sobre Ele, mas não permitimos que Ele interfira; adoramos à nossa moda, e esta deve estar certa porque sempre fizemos isso. como as outras igrejas em nosso grupo.

Qual o cristão que vai diretamente ao Sermão do Monte ou outra passagem do Novo Testamento para obter uma resposta com autoridade ao enfrentar um problema moral? Quem aceita as pala­vras de Cristo como finais com relação à coleta, controle da natali­dade, criação dos filhos, hábitos pessoais, dízimo, diversões, vendas. compras, e outros  assuntos  importantes?

Qual a escola de teologia, a partir do instituto bíblico mais humilde, que continuaria a funcionar se fizesse Cristo Senhor de todos os seus regulamentos? Pode ser que haja alguma, e oro nesse sentido, mas creio estar certo quando digo que a maioria das escolas a fim de poderem manter-se são forçadas a adotar procedimentos que não encontram justificativa na Bíblia que professam ensinar. Vemo-nos então diante de uma estranha anomalia: a autoridade de Cristo é ignorada a fim de manter uma entidade que ensina entre outras coi­sas a autoridade de Cristo.

As causas que produziram o declínio da autoridade do Senhor são várias. Vou citar apenas duas.
Uma delas é o poder do costume, precedente e tradição nos grupos religiosos mais antigos. Como a lei da gravitação, essas coisas afetam cada elemento da prática religiosa dentro do grupo, exercen­do uma pressão firme e constante em uma direção. Essa direção. como é natural, é a da conformidade com o estado de coisas, o "status quo". O costume e não Cristo é senhor nesta situação. E a mesma condição foi transmitida (talvez num grau um pouco menor) a outras igrejas, tais como os tabernáculos, as "holiness churches". as igrejas pentecostais e fundamentais e as muitas igrejas indepen­dentes e não-denominacionais que se vêem por toda parte.

A segunda causa é o reavivamento do intelectualismo entre os "evangelicais". Se posso julgar corretamente a situação, não se trata tanto de sede de aprender como do desejo de adquirir uma repu­tação de intelectual. Por causa disso, homens bons que deveriam ter-se apercebido da situação, estão sendo usados para colaborar com o inimigo. Vou explicar.

Nossa fé evangélica (que acredito ser a verdadeira fé possuída por Cristo e seus apóstolos) está sendo hoje atacada de muitas di­reções diferentes. No mundo ocidental o inimigo repudiou a violên­cia, ele não vem a nós com a espada e o porrete; vem agora sorrin­do, trazendo presentes. Eleva os olhos para o céu e jura que crê também na fé possuída por nossos pais, mas seu verdadeiro propó­sito é destruir essa fé, ou pelo menos modificá-la até o ponto de não mais conter o elemento sobrenatural que antes continha. Ele vem em nome da filosofia, psicologia ou antropologia, e com uma atitude mansa e razoável insiste em que repensemos a nossa posição histó­rica, que sejamos menos rígidos, mais tolerantes, mais compreensivos.

Ele fala no jargão sagrado das escolas e muitos de nossos evan­gélicos semi-educados correm para render-lhe culto. Ele atira diplomas acadêmicos aos filhos dos profetas, como Rockefeller fazia com os filhos dos camponeses. Os "evangelicais" que foram acusados, mais ou menos justamente, de não possuírem uma escolaridade de nível superior, agora procuram agarrar esses símbolos de posição com os olhos brilhando, e quando os obtêm mal conseguem crer na sua boa sorte.

Para o verdadeiro cristão, o teste supremo de tudo quanto se refere à religião é o lugar que o Senhor ocupa. Ele é Senhor ou símbolo? Acha-se no controle do projeto ou não passa de um simples ajudante? Decide as coisas ou apenas colabora na execução dos pla­nos de outros? Todas as atividades religiosas, desde o ato mais sim­ples de um único cristão até as operações cansativas e dispendiosas de toda uma denominação, podem ser testadas de acordo com a resposta dada à pergunta: Jesus Cristo é Senhor neste ato? O fato de nossas obras provarem ser de madeira, palha e mato em lugar de ouro, prata e pedras preciosas naquele grande dia, vai depender da resposta certa a essa pergunta.

Que fazer então? Cada um de nós deve decidir, e existem três escolhas possíveis. Uma delas é indignar-se e acusar-me de uma ati­tude irresponsável. Outra é concordar de maneira geral com o que escrevi, mas consolar-se com a idéia de que existem exceções e esta­mos entre estas. A terceira ê prostrar-se humildemente e confessar que entristecemos o Espírito e desonramos o Senhor, deixando de dar-lhe a posição que o Pai lhe conferiu como Cabeça e Senhor da Igreja.

A primeira e a segunda não farão senão confirmar o erro. Mas a terceira, se levada até a sua execução final, poderá remover a maldição. A decisão é nossa.


A.W.Tozer