Este é o fardo em meu coração e embora não
reivindique para mim mesmo qualquer inspiração especial, sinto porém que este é
também o fardo do Espírito.
Se conheço meu próprio coração é apenas o amor que me
leva a escrever isto. O que deixo aqui por escrito não é o fermento ácido de
alguém agitado por contendas com companheiros cristãos. Não houve conflitos.
Não fui abusado, maltratado ou atacado por ninguém. Essas observações também
não são fruto de experiências desagradáveis que tenha lido em minha associação
com outros. Minha convivência com a igreja que freqüento assim como cristãos de
outras denominações sempre foram amigáveis, corteses e satisfatórias. Minha
tristeza resulta simplesmente de uma condição que acredito achar-se quase universalmente presente
nas igrejas.
Penso que devo também reconhecer que eu também me
encontro bastante envolvido na situação que deploro aqui. Como Esdras em sua
poderosa oração intercessória incluiu-se entre os malfeitores, faço o mesmo.
"Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face,
meu Deus: porque as nossas iniqüidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e
a nossa culpa cresceu até os
céus" (Ed 9:13).
Qualquer crítica feita
aqui a outros deve voltar-se contra mim. Eu também sou culpado. Isto está sendo
escrito na esperança de que possamos todos voltar-nos para o Senhor nosso Deus
e não pecar mais contra Ele.
Permita que declare a causa do meu fardo: Jesus
Cristo não tem hoje quase nenhuma autoridade entre os grupos que se chamam pelo
seu nome. Não estou me referindo aqui aos católico-romanos, nem aos
liberais, nem sequer aos cultos quase-cristãos. Refiro-me às igrejas
protestantes em geral e incluo aquelas que protestam mais alto que não se acham
num declive espiritual, afastando-se de nosso Senhor e seus apóstolos, a saber,
os "evangelicais".
Trata-se de uma doutrina básica do Novo Testamento
que após a sua ressurreição o Homem Jesus foi declarado por Deus como sendo
Senhor e Cristo, e que Ele foi investido pelo Pai com absoluta soberania sobre
a igreja que é o seu Corpo. Ele possui toda a autoridade no céu e na terra. Na
hora oportuna Ele irá exercê-la plenamente, mas durante este período na
história Ele permite que esta autoridade seja desafiada ou ignorada. E
justamente agora ela está sendo desafiada pelo mundo e ignorada pela igreja.
A posição atual de Cristo nas igrejas evangélicas
pode ser com parada à de um rei numa monarquia limitada, constitucional. O rei
(algumas vezes despersonalizado pelo termo "a Coroa") não passa em
tal país de um símbolo agradável de unidade e lealdade, tal como uma bandeira
ou hino nacional. Ele é louvado, festejado e sustentado, mas sua autoridade
como rei é insignificante. De maneira nominal lidera a todos, mas nas horas de
crise alguém mais toma as decisões. Nas ocasiões solenes aparece em suas
roupagens reais a fim de pronunciar o discurso insípido, incolor, colocado em
seus lábios pelos verdadeiros senhores do país. Toda a situação pode não passar
de um faz-de-conta inócuo, mas tem suas raízes no passado e ninguém quer
desistir dele.
Entre as igrejas evangélicas, Cristo não passa hoje
de um Simples símbolo, muito amado. "Todos Louvem o Poder do Nome de
Jesus" é o hino nacional da igreja e a cruz sua bandeira oficial. Mas nos
serviços semanais da igreja e na conduta diária de seus membros, alguém
mais, e não Cristo,
toma as decisões.
Nas ocasiões adequadas,
permite-se que Cristo diga: ''Vinde a mim, todos vós que estais cansados e
sobrecarregados" ou "Não se turbe o vosso coração", mas no
momento em que termina o sermão alguém toma a dianteira. Os que têm autoridade
decidem quais devem ser os padrões morais da igreja, assim como todos os
objetivos e métodos empregados para alcançá-los. Devido a uma organização longa
e meticulosa, o jovem pastor recém-saído do seminário exerce hoje muitas vezes
mais autoridade sobre a igreja do
que Jesus Cristo.
Este artigo foi publicado pela primeira vez no
"The Alliance Witness" a 15 de maio de 1963, apenas dois dias após a
morte do Dr. Tozer. Ele foi, de certa forma, o seu discurso de despedida, pois
expressava a preocupação que ia em seu íntimo.
Cristo não só tem agora menos ou nenhuma autoridade,
Ele também está perdendo cada vez mais a sua influência. Não diria que ela é
inexistente, mas sim que é pequena e está diminuindo. Uma comparação justa
seria com a influência de Abraão Lincoln sobre o povo norte-americano. O
honesto Abe continua sendo o ídolo do país. Seu rosto bondoso, austero, tão
comum que chega a ser belo, aparece em toda parte. É fácil sentir os olhos
cheios de lágrimas quando pensamos nele. As crianças crescem aprendendo
histórias a respeito do seu amor. honestidade e humildade.
Mas depois de termos controlado nossas emoções, o que
nos resta? Nada mais que um bom exemplo, o qual, à medida que retrocede no
passado se torna cada vez mais irreal e exerce uma influência cada vez menor.
Qualquer patife está disposto a vestir o casaco de Lincoln, preto e comprido. A
luz fria dos fatos políticos nos Estados Unidos, o constante apelo a Lincoln
por parte dos políticos não passa de uma piada cínica.
A soberania de Jesus não está de todo
esquecida entre os cristãos. mas foi relegada ao hinário, onde toda
responsabilidade em relação a ela pode ser confortavelmente descarregada num
brilho de agradável emoção religiosa. No caso de ser ensinada como uma teoria
na sala de aula, ela é raramente aplicada na vida diária. A idéia de que o
Homem Cristo Jesus possui autoridade final e absoluta sobre toda a igreja e
todos os seus membros cm cada detalhe de suas vidas é simplesmente posta de
lado hoje como não sendo verdadeira pelos cristãos evangélicos de modo geral.
O que fazemos é o seguinte: aceitamos o cristianismo
de nosso grupo como sendo idêntico ao de Cristo e seus apóstolos. As crenças,
práticas, ética e atividades de nosso grupo são equacionadas com o cristianismo
do Novo Testamento. O que quer que o grupo pense diga ou faça é bíblico, sem
que façam perguntas. Presume-se que tudo que o Senhor nos pede é para
ocupar-nos com todas as atividades do grupo; e, agindo assim, estamos
cumprindo os mandamentos de Cristo.
No sentido de evitar a dura necessidade de obedecer
ou rejeitar as claras instruções do Senhor no Novo Testamento, nos refugiamos
na interpretação liberal das mesmas. A casuística não e propriedade exclusiva
dos teólogos católico-romanos. Os evangélicos também sabem perfeitamente fugir
das arestas aguçadas da obediência por meio de explicações sutis e complexas.
Estas são feitas sob medida para a carne. Eles desculpam a desobediência,
acomodam a carnalidade e neutralizam as palavras de Cristo. A essência de tudo
é simplesmente que Cristo não poderia ter pretendido dizer o que disse. Seus
ensinos, mesmo em teoria, são aceitos apenas depois de terem sido diluídos
pela interpretação.
Cristo é porém consultado por um número cada vez
maior de pessoas com "problemas" e buscado pelos que desejam paz de
mente. Ele é largamente recomendado como uma espécie de psiquiatra espiritual
com poderes notáveis para esclarecer os que estão confusos. Jesus é capaz de
livrá-los de seus complexos de culpa e ajudá-los a evitar graves traumas
psíquicos através de um ajuste suave e fácil à sociedade e a seu próprio id.
Este Cristo estranho não tem naturalmente qualquer ligação com o Cristo do
Novo Testamento. O verdadeiro Cristo é também Senhor, mas este Cristo
tolerante não passa de um servo do povo um pouco mais graduado.
Suponho, todavia, que devo oferecer alguma prova
concreta para apoiar minha acusação de que Cristo tem pouca ou nenhuma autoridade
hoje entre as igrejas. Vou fazer então algumas perguntas e a resposta às mesmas
será a evidência.
Qual a diretoria da igreja que consulta as palavras
do Senhor para decidir os assuntos em discussão? Quem estiver lendo isto e que
já tenha feito parte de um quadro diretor, procure lembrar-se das vezes em que
qualquer membro lesse as Escrituras para estabelecer um ponto, ou que qualquer
presidente da reunião sugerisse aos irmãos que procurassem as instruções que o
Senhor poderia dar-lhes num determinado assunto. As reuniões administrativas
são geralmente iniciadas com uma oração formal; depois disso o Cabeça da
Igreja fica respeitosamente em silêncio enquanto os verdadeiros governantes
passam a agir. Quem quiser negar isto apresente evidência em contrário. Ficarei
muito contente se isso acontecer.
Que comitê da Escola Dominical pesquisa a Escritura
pedindo orientação? Não é verdade que os membros invariavelmente julgam que
sabem tudo o que precisam fazer e que o único problema é descobrir meios
eficazes para pôr seu plano em prática? Planos, regras, "operações" e
novas técnicas metodológicas absorvem todo o seu tempo e atenção. A oração
antes da reunião é no sentido de pedir ajuda divina para seus planos. A ideia
de que o Senhor possa ter algumas
instruções para dar-lhes
nem sequer lhes
cruza a mente.
Quem se lembra de um presidente de assembleia ter
levado a Bíblia para a mesa com ele a fim de realmente usá-la? Minutas, regulamentos,
regras da ordem, etc., sim. Os
mandamentos sagrados do Senhor, não. Existe uma absoluta diferença entre o
período devocional e a sessão de negócios. O primeiro não tem relação alguma
com o segundo.
Qual a entidade missionária no estrangeiro que
realmente busca seguir a orientação do Senhor como provida pela sua Palavra e
seu Espírito? Todas pensam que fazem isso, mas na verdade apenas presumem que
seus objetivos são bíblicos e pedem a seguir auxílio para alcançá-los. Podem
até mesmo orar a noite inteira a Deus, a fim de que seus empreendimentos tenham
êxito, mas Cristo é desejado como ajudante e não como Senhor. Os recursos
humanos são projetados para alcançar fins tidos como divinos, A seguir estes se
transformam em regras fixas e daí por diante o Senhor não tem sequer o direito
de votar a favor ou contra.
Na organização do culto público onde se acha a
autoridade de Cristo? A verdade é que o Senhor raramente controla um serviço
hoje em dia, e sua influência é bem insignificante. Cantamos a respeito dE!e e
pregamos sobre Ele, mas não permitimos que Ele interfira; adoramos à nossa
moda, e esta deve estar certa porque sempre fizemos isso. como as outras
igrejas em nosso grupo.
Qual o cristão que vai diretamente ao Sermão do Monte
ou outra passagem do Novo Testamento para obter uma resposta com autoridade ao
enfrentar um problema moral? Quem aceita as palavras de Cristo como finais com
relação à coleta, controle da natalidade,
criação dos filhos, hábitos pessoais, dízimo, diversões, vendas. compras, e
outros assuntos importantes?
Qual a escola de teologia, a partir do instituto
bíblico mais humilde, que continuaria a funcionar se fizesse Cristo Senhor de
todos os seus regulamentos? Pode ser que haja alguma, e oro nesse sentido, mas
creio estar certo quando digo que a maioria das escolas a fim de poderem
manter-se são forçadas a adotar procedimentos que não encontram justificativa
na Bíblia que professam ensinar. Vemo-nos então diante de uma estranha
anomalia: a autoridade de Cristo é ignorada a fim de manter uma entidade que
ensina entre outras coisas a autoridade de Cristo.
As causas que produziram o declínio da autoridade do
Senhor são várias. Vou citar apenas duas.
Uma delas é o poder do costume, precedente e tradição
nos grupos religiosos mais antigos. Como a lei da gravitação, essas coisas
afetam cada elemento da prática religiosa dentro do grupo, exercendo uma
pressão firme e constante em uma direção. Essa direção. como é natural, é a da
conformidade com o estado de coisas, o "status quo". O costume e não
Cristo é senhor nesta situação. E a mesma condição foi transmitida (talvez num
grau um pouco menor) a outras igrejas, tais como os tabernáculos, as
"holiness churches". as igrejas pentecostais e fundamentais e as
muitas igrejas independentes e não-denominacionais que se vêem por toda parte.
A segunda causa é o reavivamento do intelectualismo entre
os "evangelicais". Se posso julgar corretamente a situação, não se
trata tanto de sede de aprender como do desejo de adquirir uma reputação de
intelectual. Por causa disso, homens bons que deveriam ter-se apercebido da
situação, estão sendo usados para colaborar com o inimigo. Vou explicar.
Nossa fé evangélica (que acredito ser a verdadeira fé
possuída por Cristo e seus apóstolos) está sendo hoje atacada de muitas direções
diferentes. No mundo ocidental o inimigo repudiou a violência, ele não vem a
nós com a espada e o porrete; vem agora sorrindo, trazendo presentes. Eleva os
olhos para o céu e jura que crê também na fé possuída por nossos pais, mas seu
verdadeiro propósito é destruir essa fé, ou pelo menos modificá-la até o ponto
de não mais conter o elemento sobrenatural que antes continha. Ele vem em nome
da filosofia, psicologia ou antropologia, e com uma atitude mansa e razoável
insiste em que repensemos a nossa posição histórica, que sejamos menos
rígidos, mais tolerantes, mais compreensivos.
Ele fala no jargão sagrado das escolas e muitos de
nossos evangélicos semi-educados correm para render-lhe culto. Ele atira
diplomas acadêmicos aos filhos dos profetas, como Rockefeller fazia com os
filhos dos camponeses. Os "evangelicais" que foram acusados, mais ou
menos justamente, de não possuírem uma escolaridade de nível superior, agora
procuram agarrar esses símbolos de posição com os olhos brilhando, e quando os
obtêm mal conseguem crer na sua boa sorte.
Para o verdadeiro cristão, o teste supremo de tudo
quanto se refere à religião é o lugar que o Senhor ocupa. Ele é Senhor ou
símbolo? Acha-se no controle do projeto ou não passa de um simples ajudante?
Decide as coisas ou apenas colabora na execução dos planos de outros? Todas as
atividades religiosas, desde o ato mais simples de um único cristão até as
operações cansativas e dispendiosas de toda uma denominação, podem ser testadas
de acordo com a resposta dada à pergunta: Jesus Cristo é Senhor neste ato? O
fato de nossas obras provarem ser de madeira, palha e mato em lugar de ouro,
prata e pedras preciosas naquele grande dia, vai depender da resposta certa a essa pergunta.
Que fazer então? Cada um de nós deve decidir, e
existem três escolhas possíveis. Uma delas é indignar-se e acusar-me de uma atitude
irresponsável. Outra é concordar de maneira geral com o que escrevi, mas
consolar-se com a idéia de que existem exceções e estamos entre estas. A
terceira ê prostrar-se humildemente e confessar que entristecemos o
Espírito e desonramos o Senhor, deixando de dar-lhe a posição que o Pai lhe
conferiu como Cabeça e Senhor da Igreja.
A primeira e a segunda não farão senão confirmar o
erro. Mas a terceira, se levada até a sua execução final, poderá remover a
maldição. A decisão é nossa.
A.W.Tozer