sábado, 2 de novembro de 2013

Organização: Necessária e Perigosa


A organização é, de forma básica, o arranjo de várias partes de um todo numa relação tal umas com as outras que um fim dese­jado possa ser atingido. Isto pode ser feito por consentimento ou compulsão, dependendo das circunstâncias.
 
Certo nível de organização é necessário em toda parte, através de todo o universo criado, e em toda sociedade humana. Sem ela não poderia haver ciência, governo, unidade familiar, arte, música, literatura, nenhuma atividade criativa.

A vida requer organização. Não existe vida em separado do meio através do qual ela se expressa. Ela não pode subsistir por si mesma, independente de um corpo organizado, sendo achada ape­nas onde existe algum corpo, alguma forma em que possa residir. E onde existe corpo e forma existe organização. O homem, por exemplo, é a soma de suas partes organizadas e coordenadas e nelas e através delas o mistério da vida encontra expressão. Quando, por um motivo qualquer, as partes se desorganizam, a vida se acaba e o homem morre.

A sociedade exige organização. Caso os homens devam viver juntos no mundo, eles precisam ter alguma forma de organização. Isto foi reconhecido em todas as épocas e lugares e é visto em todos os níveis da sociedade humana, desde a tribo selvagem até o império mundial. De maneira ideal, o objeto do governo é conseguir ordem com um mínimo de restrição, permitindo ao mesmo tempo um máxi­mo de liberdade ao indivíduo.

O fato de certa restrição da liberdade individual ser boa e necessária, é algo admitido por todas as pessoas inteligentes; e que muita restrição produz resultados negativos é também algo admiti­do por todos. Surge o conflito quando tentamos definir "certa" e "muita". Quanto é "muita"? e quão pouco é "certa"? Se isto pu­desse ser estabelecido a paz desceria sobre o Congresso e o Parla­mento, os partidos políticos entrariam em acordo, e uma criança os levaria pela mão.

A diferença entre a escravidão e a liberdade é apenas questão de grau. Os próprios países totalitários gozam de alguma liberdade, e os cidadãos das nações livres precisam suportar certo grau de res­trição. É o equilíbrio entre ambos os elementos que decide se um dado país é escravo ou livre. Nenhum cidadão bem informado acre­dita ser absolutamente livre. Ele sabe que sua liberdade precisa ser restringida de alguma forma para o benefício de todos. O mais que pode esperar é que a restrição seja mantida num mínimo. A este mí­nimo de limitação ele chama de "liberdade", e tão preciosa é ela que está disposto a arriscar sua vida a fim de mantê-la. O mundo ocidental travou duas grandes guerras num espaço de vinte e cinco anos a fim de preservar este equilíbrio de liberdade e escapar às restrições mais severas que o nazismo e o fascismo lhe teriam im­posto.

Pela sua formação cristocêntrica e religiosa, este escritor natural­mente associa tudo à religião cristã. Desde há muitos anos eu me preocupo com a tendência de organizar demasiado a comunidade cristã, e já fui acusado por causa disso de não acreditar na orga­nização. Mas a verdade é muito outra.

O homem que se opuser a toda organização na igreja ignora completamente os fatos da vida. A arte é a beleza organizada; a música é o som organizado; a filosofia, o pensamento organizado; a ciência, o conhecimento organizado; o governo não passa de socie­dade organizada. E o que é a verdadeira igreja de Cristo senão o mistério organizado?

O pulsar do coração da igreja é vida — na frase feliz de Henry Scougal, "a vida de Deus na alma do homem". Esta vida, junta­mente com a presença real de Cristo em seu interior, faz da igreja uma entidade divina, um mistério, um milagre. Entretanto, sem subs­tância, forma e ordem esta vida divina não teria onde habitar, nem meios de expressar-se na comunidade.

Por este motivo, o Novo Testamento fala muito de organização. As epístolas pastorais de Paulo e suas cartas aos cristãos de Corinto revelam que o grande apóstolo era um organizador. Ele lembrou Tito que o deixara em Creta a fim de pôr ordem nas coisas necessárias e ordenar presbíteros em cada cidade. Isto só pode indicar que Tito foi comissionado pelo apóstolo a fim de impor uma espécie de ordem sobre os vários grupos de crentes que viviam naquela ilha, e a ordem só pode ser alcançada através da organização.

Os cristãos têm cometido erros em várias direções por não com­preenderem o propósito da organização e os perigos resultantes caso ela não seja controlada. Alguns não querem qualquer tipo de orga­nização e as conseqüências são confusão e desordem. Estes dois ele­mentos negativos não ajudam a humanidade nem servem para glorificar a Deus. Outros substituem a vida da igreja pela organização e embora tendo o nome de vivos estão na verdade mortos. Outros, ainda, se apaixonam de tal forma pelas regras e regulamentos que os multiplicam além de todo bom senso, e logo a espontaneidade se apaga dentro da igreja e a vida desaparece.

É com este último erro que me preocupo mais. Muitos grupos da igreja pereceram por excesso de organização, da mesma forma que outros por falta dela. Os líderes sábios devem ficar vigilantes com relação a ambos os extremos. O homem pode morrer tanto de pres­são alta como de baixa, e pouco importa qual das duas o tenha matado. Ele está igualmente morto de um modo ou de outro. A coisa importante na organização da igreja é descobrir o equilíbrio escriturístico entre os dois extremos e evitá-los a ambos.

É doloroso ver um grupo de cristãos felizes, nascidos com sim­plicidade e unidos pelos laços do amor celestial, perderem gradual­mente seu caráter simples, começando a tentar controlar cada movi­mento do Espírito e morrendo lentamente de dentro para fora. Essa foi, porém, a direção que quase todas as denominações cristãs to­maram através da História, e apesar da advertência feita pelo Espí­rito Santo e as Escrituras, essa é a direção que quase todos os grupos religiosos estão tornando hoje.

Embora haja algum perigo de que nossos grupos evangélicos possam sofrer atualmente de falta de organização apropriada, o pe­rigo real certamente se acha do lado oposto. As igrejas se precipitam em direção à complexidade, como os patos para a água. O que se acha por trás disso?

Em primeiro lugar, penso eu, as raízes estão fincadas no desejo carnal por parte de uma minoria bem dotada de impor-se à maioria menos talentosa e mantê-la onde não possa interferir em suas ousa­das ambições. A frase muito citada (e às vezes mal interpretada) é tão verdadeira em religião quanto na política: "O poder se inclina a corromper as pessoas e o poder absoluto corrompe totalmente." A vontade de aparecer e um mal cuja cura não foi ainda descoberta.

Outro motivo para as nossas superorganizações é o medo. As igrejas e sociedades fundadas por homens santos com coragem, fé e imaginação santificadas, parecem incapazes de propagar-se no mes­mo nível espiritual além de uma ou duas gerações. Os pais espirituais não tiveram capacidade para gerar outros com coragem e fé seme­lhantes à sua. Os pais tinham Deus e pouco mais, mas seus descen­dentes perdem a sua visão e procuram métodos e constituições para conseguir o poder que seus corações lhes mostram faltar-lhes, Os regulamentos e os precedentes endurecem então, formando uma arma­dura protetora, onde podem refugiar-se dos problemas. É sempre mais fácil e seguro encolher o pescoço do que lutar no campo de batalha,

Em nossa vida decaída existe um forte poder de atração na complexidade, afastando-nos das coisas simples e reais. Parece haver uma espécie de triste inevitabilidade por trás de nosso impulso mór­bido em direção ao suicídio espiritual. Apenas através da percepção profética, oração vigilante e trabalho árduo é que podemos inverter o curso e recuperar a glória perdida.

No velho cemitério próximo à histórica Rocha de Plymouth, onde repousam os Patriarcas Peregrinos, existe uma pedra onde foram gravadas estas solenes palavras (cito de memória): "Aquilo que nos­sos pais com tanto esforço conseguiram, não lancemos fora descuida­damente".

Os evangélicos de nossos dias devem ser suficientemente sábios e aplicar essa frase à nossa própria situação religiosa. Continuamos protestantes. Devemos protestar diante do ato despreocupado de lançar fora nossa liberdade religiosa. A espontaneidade dos primeiros cristãos está se perdendo para nós. Um a um, estamos perdendo aqueles direitos comprados para nós com o sangue da aliança eter­na — o direito de sermos nós mesmos, o direito de obedecer ao Espírito Santo, o direito de ter pensamentos próprios, o direito de fazer o que quisermos com nossa vida, o direito de determinar o que fazer com nosso dinheiro, de acordo com Deus.

Lembre-se então, os perigos que enfrentamos no momento não vêm de fora, mas de dentro.



A.W.Tozer

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