A organização é, de forma básica, o arranjo de várias partes de um todo numa relação tal umas com as outras que um fim desejado possa ser atingido. Isto pode ser feito por consentimento ou compulsão, dependendo das circunstâncias.
Certo nível de organização é necessário em toda
parte, através de todo o universo criado, e em toda sociedade humana. Sem ela
não poderia haver ciência, governo, unidade familiar, arte, música, literatura,
nenhuma atividade criativa.
A vida requer organização. Não existe vida em
separado do meio através do qual ela se expressa. Ela não pode subsistir por si
mesma, independente de um corpo organizado, sendo achada apenas onde existe
algum corpo, alguma forma em que possa residir. E onde existe corpo e forma
existe organização. O homem, por exemplo, é a soma de suas partes organizadas e
coordenadas e nelas e através delas o mistério da vida encontra expressão.
Quando, por um motivo qualquer, as partes se desorganizam, a vida se acaba e o
homem morre.
A sociedade exige organização. Caso os homens devam
viver juntos no mundo, eles precisam ter alguma forma de organização. Isto foi
reconhecido em todas as épocas e lugares e é visto em todos os níveis da
sociedade humana, desde a tribo selvagem até o império mundial. De maneira
ideal, o objeto do governo é conseguir ordem com um mínimo de restrição,
permitindo ao mesmo tempo um máximo de liberdade ao indivíduo.
O fato de certa restrição da liberdade individual ser
boa e necessária, é algo admitido por todas as pessoas inteligentes; e que
muita restrição produz resultados negativos é também algo admitido por todos.
Surge o conflito quando tentamos definir "certa" e "muita".
Quanto é "muita"? e quão pouco é "certa"? Se isto pudesse
ser estabelecido a paz desceria sobre o Congresso e o Parlamento, os partidos
políticos entrariam em acordo, e uma criança os levaria pela mão.
A diferença entre a escravidão e a liberdade é apenas
questão de grau. Os próprios países totalitários gozam de alguma liberdade, e
os cidadãos das nações livres precisam suportar certo grau de restrição. É o
equilíbrio entre ambos os elementos que decide se um dado país é escravo ou
livre. Nenhum cidadão bem informado acredita ser absolutamente livre. Ele sabe
que sua liberdade precisa ser restringida de alguma forma para o benefício de
todos. O mais que pode esperar é que a restrição seja mantida num mínimo. A
este mínimo de limitação ele chama de "liberdade", e tão preciosa é
ela que está disposto a arriscar sua vida a fim de mantê-la. O mundo ocidental
travou duas grandes guerras num espaço de vinte e cinco anos a fim de preservar
este equilíbrio de liberdade e escapar às restrições mais severas que o nazismo
e o fascismo lhe teriam imposto.
Pela sua formação cristocêntrica e religiosa, este
escritor naturalmente associa tudo à religião cristã. Desde há muitos anos eu
me preocupo com a tendência de organizar demasiado a comunidade cristã, e já
fui acusado por causa disso de não acreditar na organização. Mas a verdade é
muito outra.
O homem que se opuser a toda organização na igreja
ignora completamente os fatos da vida. A arte é a beleza organizada; a música é
o som organizado; a filosofia, o pensamento organizado; a ciência, o
conhecimento organizado; o governo não passa de sociedade organizada. E o que
é a verdadeira igreja de Cristo senão o mistério organizado?
O pulsar do coração da igreja é vida — na frase feliz
de Henry Scougal, "a vida de Deus na alma do homem". Esta vida, juntamente
com a presença real de Cristo em seu interior, faz da igreja uma entidade
divina, um mistério, um milagre. Entretanto, sem substância, forma e ordem esta
vida divina não teria onde habitar, nem meios de expressar-se na comunidade.
Por este motivo, o Novo Testamento fala muito de
organização. As epístolas pastorais de Paulo e suas cartas aos cristãos de
Corinto revelam que o grande apóstolo era um organizador. Ele lembrou Tito que
o deixara em Creta a fim de pôr ordem nas coisas necessárias e ordenar
presbíteros em cada cidade. Isto só pode indicar que Tito foi comissionado pelo
apóstolo a fim de impor uma espécie de ordem sobre os vários grupos de crentes
que viviam naquela ilha, e a ordem só pode ser alcançada através da
organização.
Os cristãos têm cometido erros em várias direções por
não compreenderem o propósito da organização e os perigos resultantes caso ela
não seja controlada. Alguns não querem qualquer tipo de organização e as
conseqüências são confusão e desordem. Estes dois elementos negativos não
ajudam a humanidade nem servem para glorificar a Deus. Outros substituem a vida
da igreja pela organização e embora tendo o nome de vivos estão na verdade
mortos. Outros, ainda, se apaixonam de tal forma pelas regras e regulamentos
que os multiplicam além de todo bom senso, e logo a espontaneidade se apaga
dentro da igreja e a vida desaparece.
É com este último erro que me preocupo mais. Muitos
grupos da igreja pereceram por excesso de organização, da mesma forma que
outros por falta dela. Os líderes sábios devem ficar vigilantes com relação a
ambos os extremos. O homem pode morrer tanto de pressão alta como de baixa, e
pouco importa qual das duas o tenha matado. Ele está igualmente morto de um
modo ou de outro. A coisa importante na organização da igreja é descobrir o
equilíbrio escriturístico entre os dois extremos e evitá-los a ambos.
É doloroso ver um grupo de cristãos felizes, nascidos
com simplicidade e unidos pelos laços do amor celestial, perderem gradualmente
seu caráter simples, começando a tentar controlar cada movimento do Espírito e
morrendo lentamente de dentro para fora. Essa foi, porém, a direção que quase
todas as denominações cristãs tomaram através da História, e apesar da
advertência feita pelo Espírito Santo e as Escrituras, essa é a direção que
quase todos os grupos religiosos estão tornando hoje.
Embora haja algum perigo de que nossos grupos
evangélicos possam sofrer atualmente de falta de organização apropriada, o perigo
real certamente se acha do lado oposto. As igrejas se precipitam em direção à
complexidade, como os patos para a água. O que se acha por trás disso?
Em primeiro lugar, penso eu, as raízes estão fincadas
no desejo carnal por parte de uma minoria bem dotada de impor-se à maioria
menos talentosa e mantê-la onde não possa interferir em suas ousadas ambições.
A frase muito citada (e às vezes mal interpretada) é tão verdadeira em religião
quanto na política: "O poder se inclina a corromper as pessoas e o poder
absoluto corrompe totalmente." A vontade de aparecer e um mal cuja cura
não foi ainda descoberta.
Outro motivo para as nossas superorganizações é o
medo. As igrejas e sociedades fundadas por homens santos com coragem, fé e
imaginação santificadas, parecem incapazes de propagar-se no mesmo nível
espiritual além de uma ou duas gerações. Os pais espirituais não tiveram
capacidade para gerar outros com coragem e fé semelhantes à sua. Os pais
tinham Deus e pouco mais, mas seus descendentes perdem a sua visão e procuram
métodos e constituições para conseguir o poder que seus corações lhes mostram
faltar-lhes, Os regulamentos e os precedentes endurecem então, formando uma
armadura protetora, onde podem refugiar-se dos problemas. É sempre mais fácil
e seguro encolher o pescoço do que lutar no campo de batalha,
Em nossa vida decaída existe um forte poder de
atração na complexidade, afastando-nos das coisas simples e reais. Parece haver
uma espécie de triste inevitabilidade por trás de nosso impulso mórbido em
direção ao suicídio espiritual. Apenas através da percepção profética, oração
vigilante e trabalho árduo é que podemos inverter o curso e recuperar a glória
perdida.
No velho cemitério próximo à histórica Rocha de
Plymouth, onde repousam os Patriarcas Peregrinos, existe uma pedra onde foram
gravadas estas solenes palavras (cito de memória): "Aquilo que nossos
pais com tanto esforço conseguiram, não lancemos fora descuidadamente".
Os evangélicos de nossos dias devem ser
suficientemente sábios e aplicar essa frase à nossa própria situação religiosa.
Continuamos protestantes. Devemos protestar diante do ato despreocupado de
lançar fora nossa liberdade religiosa. A espontaneidade dos primeiros cristãos
está se perdendo para nós. Um a um, estamos perdendo aqueles direitos comprados
para nós com o sangue da aliança eterna — o direito de sermos nós mesmos, o
direito de obedecer ao Espírito Santo, o direito de ter pensamentos próprios, o
direito de fazer o que quisermos com nossa vida, o direito de determinar o que
fazer com nosso dinheiro, de acordo com Deus.
Lembre-se então, os perigos que enfrentamos no
momento não vêm de fora, mas de dentro.
A.W.Tozer
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