O que pensamos quando estamos com liberdade para pensar sobre o que queremos ser é isso que somos ou logo seremos.A Bíblia tem muita coisa para dizer acerca dos nossos pensamentos; o evangelismo atual não tem praticamente nada para dizer sobre eles. A razão por que a Bíblia fala tanto deles é que os nossos pensamentos são vitalmente importantes para nós; a razão por que o evangelismo fala tão pouco é que estamos reagindo exageradamente contra as seitas do "pensamento", como as do Novo Testamento, da Unidade, da Ciência Cristã, e outras semelhantes. Estas seitas fazem os nossos pensamentos ficarem muito perto de tudo, e nos opomos fazendo-os ficar muito perto de nada. Ambas as posições são erradas.
Os nossos pensamentos voluntários não só revelam o
que somos; predizem o que seremos. A não ser aquela conduta que brota dos
nossos instintos naturais básicos, todo o nosso comportamento é precedido pelos
nossos pensamentos e deles se origina. A vontade pode vir a ser serva dos
pensamentos, e, em elevado grau, mesmo as nossas emoções seguem o nosso pensar.
"Quanto mais penso nisso. mais louco fico", é como o homem comum o
coloca, e ao fazê-lo, não somente relata com precisão os seus processos
mentais, mas também paga inconsciente tributo ao poder do pensamento, O pensamento
instiga o sentimento, e o sentimento dispara a ação. Assim fomos feitos, e bem
que podemos aceitá-lo.
Os Salmos e os Profetas contêm numerosas referências
ao poder que o reto pensamento tem de inspirar sentimento religioso e de
incitar a conduta certa. "Considero os meus caminhos, e volto os meus
passos para os teus testemunhos". "Enquanto eu meditava ateou-se o
fogo: então disse eu com a própria língua. . ." Vezes sem conta os escritores
do Velho Testamento nos exortam ã aquietar-nos e a pensar em coisas elevadas e
santas como fator preliminar para a correção da vida ou uma boa ação ou um
feito corajoso.
O Velho Testamento não está sozinho em seu respeito
pelo poder do pensamento humano, poder outorgado por Deus. Cristo ensinou que
os homens se corrompem por seus maus pensamentos, e chegou ao ponto de igualar
o pensamento ao ato: "Qualquer que olhar para uma mulher com intenção
impura, no coração já adulterou com ela". Paulo recitou uma lista de
fulgentes virtudes, e ordenou: "Seja isso o que ocupe o vosso
pensamento".
Estas citações são apenas quatro das centenas que
poderiam fazer-se das Escrituras. Pensar em Deus e em coisas santas cria uma
atmosfera moral favorável ao crescimento da fé, bem como do amor, da humildade
e da reverência. Pelo pensamento não podemos regenerar os nossos corações, nem
eliminar os nossos pecados, nem mudar as manchas do leopardo. Tampouco podemos
com o pensamento acrescentar um côvado à nossa estatura, ou tornar o mal bem,
ou as trevas luz. Ensinar isso é representar falsamente uma verdade bíblica e
usá-la para a nossa própria ruína. Mas, pelo pensamento inspirado pelo
Espírito, podemos ajudar a fazer de nossas mentes santuários purificados em que
Deus terá prazer em habitar.
Referi-me num parágrafo anterior aos "nossos
pensamentos voluntários", e usei as palavras de propósito. Em nosso
jornadear através deste mundo mau e hostil, ser-nos-ão impostos muitos
pensamentos de que não gostamos e pelos quais não temos simpatia moral. As
necessidades da vida podem compelir-nos por dias e anos a abrigar pensamentos
em nenhum sentido edificantes. O conhecimento comum do que fazem os nossos
semelhantes produz pensamentos repugnantes à nossa alma cristã. Estes
necessariamente nos afetam, mas pouco. Não somos responsáveis por eles, e eles
passam por nossas mentes como um pássaro cruzando os ares, sem deixar rastro.
Não têm efeito duradouro em nós porque não são propriamente nossos. São
intrusos mal recebidos pelos quais não temos amor e dos quais nos livramos tão
depressa quanto possível.
Quem quiser verificar sua verdadeira condição
espiritual pode fazê-lo notando quais foram os seus pensamentos nas últimas
horas ou dias. Em que pensou quando estava livre para pensar no que lhe
agradasse? Para o quê se voltou o íntimo do seu coração quando estava livre
para voltar-se para onde quisesse? Quando o pássaro do pensamento foi posto em
liberdade, voou para longe como o corvo, para pousar sobre as carcaças
flutuantes ou, como a pomba, circulou e voltou para a arca de Deus? Ê fácil
realizar esse teste, e, se formos sinceros conosco mesmos, poderemos descobrir
não só o que somos, mas também o que vamos ser. Logo seremos a suma dos nossos
pensamentos voluntários.
Conquanto os nossos pensamentos instiguem os nossos
sentimentos, e assim influenciem fortemente as nossas vontades, é contudo
certo que a vontade pode e deve ser senhora dos nossos pensamentos. Toda pessoa
normal pode determinar aquilo em que vai pensar. Naturalmente, a pessoa aflita
ou tentada pode achar um tanto difícil controlar os seus pensamentos, e mesmo
enquanto se concentra num objeto digno, pensamentos insensatos e fugidios podem
fazer travessuras sobre a sua mente, como vivos relâmpagos numa noite de verão.
Tendem estes a ser mais molestos do que perniciosos e, no final das contas, não
fazem muita diferença, sejam isto ou aquilo.
O melhor meio de controlar os nossos pensamentos é
oferecer a mente a Deus em completa submissão. O Espírito Santo a aceitará e
assumirá o controle dela imediatamente. Depois será relativamente fácil pensar
em coisas espirituais, especialmente se treinarmos o nosso pensamento mediante
longos períodos de oração diária. Praticar longamente a arte da oração mental
(isto é, falar com Deus interiormente, enquanto trabalhamos ou viajamos)
ajudará a formar o hábito do pensamento santo.
A.W.Tozer
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