Como todas as outras faculdades que nos pertencem, a
imaginação pode ser bênção ou maldição, dependendo inteiramente de como é
utilizada e da medida em que é bem disciplinada.
Todos temos em algum grau capacidade para imaginar.
Este dom nos habilita a ver sentido nos objetos materiais, a observar
semelhanças entre coisas que à primeira vista parecem tão diferentes entre si.
Permite-nos saber coisas que os sentidos jamais poderiam dizer-nos, pois com
ela somos capazes de ver, através das impressões sensoriais, a realidade que
está por trás das coisas.
Todo avanço feito pela humanidade em qualquer campo
começou com uma idéia à qual nada correspondia na ocasião. A mente do inventor
simplesmente pegava fragmentos de idéias conhecidas e com eles fazia alguma
coisa que, não só era totalmente desconhecida, mas também inexistia completamente
na época. Assim, "criamos" coisas e, ao fazê-lo, provamos que fomos
feitos à imagem do Criador. O fato de que muitas vezes o homem decaído emprega
os seus poderes criadores a serviço do mal, não invalida o nosso argumento.
Qualquer talento pode ser usado para o mal como para o bem, mas, não obstante,
todo talento provém de Deus.
Algumas pessoas que erroneamente confundem a palavra
"imaginativo" com a palavra "imaginário", talvez neguem que
a imaginação é de grande valor no serviço de Deus.
O Evangelho de Jesus Cristo não negocia com coisas
imaginárias. O livro mais realista do mundo é a Bíblia. Deus é real, os homens
são reais, e real é o pecado, bem como a morte e o inferno para onde o pecado
leva inevitavelmente. A presença de Deus não e imaginária, e a oração não é a
indulgência de uma deleitável fantasia. Os objetos que absorvem a atenção do
homem que ora, conquanto imateriais. são contudo completamente reais; mais
certamente reais, afinal se haverá de convir, do que qualquer objeto terreno.
O valor da imaginação purificada na esfera da
religião está em seu poder de perceber nas coisas naturais sombras de coisas
espirituais. Ela capacita o homem reverente a
"Ver o mundo num grão de areia e a eternidade numa hora".
A fraqueza do fariseu do passado era sua falta de
imaginação, ou, o que dá na mesma, sua recusa em permitir-lhe entrar no campo
da religião. Via o texto com a sua definição teológica guardada com cuidado, e
não via nada além disso.
"Uma prímula à margem do rio era para ele uma prímula amarela, e nada mais."
Quando Cristo veio com a Sua esplendente penetração
espiritual e com Sua fina sensibilidade moral, parecia ao fariseu um devoto de
outra espécie de religião, o que Ele realmente era, se o mundo o tivesse
tão-somente compreendido. Ele podia ver a alma do texto, enquanto que o fariseu
só podia ver o corpo, e podia provar sempre que Cristo estava errado apelando
para a letra da lei ou para uma interpretação consagrada pela tradição. O
abismo que os separava era grande demais para permitir que coexistissem. Assim,
o fariseu, que estava em condições de fazê-lo, entregou o jovem Vidente à
morte. Tem sido sempre assim, e creio que assim será sempre, até que a terra se
encha do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar.
A imaginação, visto que é uma faculdade da mente
natural, necessariamente tem de sofrer por suas limitações intrínsecas e por
uma inerente inclinação para o mal. Embora a palavra, como se acha na Versão do
Rei Tiago (King James Bible), normalmente não signifique imaginação, mas
simplesmente raciocínio de homens cheios de pecado(1) não escrevo com
o fim de desculpar a imaginação não santificada. Bem sei que dela como de uma
fonte poluída, jorraram correntes de idéias malignas que através dos anos têm
levado os homens a um comportamento desordenado e destrutivo.
Contudo, uma imaginação purificada e dirigida pelo
Espírito é coisa completamente diversa, eco
que tenho em mente aqui. Anseio por ver a imaginação liberta de sua prisão e
recebendo o lugar que por direito lhe cabe entre os filhos da nova criação. O
que estou tentando descrever aqui é o sagrado dom de ver, a capacidade de olhar
além do véu e contemplar com maravilhado espanto as belezas e os mistérios das
realidades santas e eternas.
A pesada mente presa à terra não dá crédito ao
cristianismo. Permitindo-se-]he dominar a igreja bastante tempo, ela o forçará
a tomar uma destas duas direções: ou a do liberalismo, no qual achará alívio
numa falsa liberdade; ou a do mundo, onde achará prazer desfrutável, mas fatal.
Mas pergunto se tudo isso não está incluído nas
palavras do nosso Senhor, registradas no Evangelho Segundo João: "Quando
vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade, porque
não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará
coisas que hão de vir. Ele me glorificará porque há de receber do que é meu e
vo-lo há de anunciar" (16:13, 14).
Possuir mente habilitada pelo Espírito é privilégio
do cristão, sob a graça, e isto abrange tudo quanto venho tentando dizer aqui.
A.W.Tozer
[1] Comparem-se, por exemplo, as seguintes versões
de Romanos 1:21. quanto à palavra grega que ali ocorre: Almeida, Revista e
Corrigida: discursos; Almeida, Revista e Atualizada: raciocínios. Nota do
Tradutor
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