O pecado fez um ótimo trabalho, arruinando-nos por
completo, e o processo de restauração é longo e vagaroso.
As obras da graça na vida de cada um talvez nunca
venham a ser claras e definidas, mas trata-se sem dúvida da obra de um Deus, a fim
de levar de volta à semelhança divina o coração decaído. Isto pode ser visto
perfeitamente na dificuldade que experimentamos em conseguir simetria
espiritual em nossa vida. A incapacidade, até mesmo das almas mais piedosas, de
manifestar as virtudes cristãs em igual proporção e sem qualquer mistura de
atributos não-cristãos tem sido fonte de muita tristeza para grande número de
crentes.
As virtudes da coragem e moderação, quando mantidas
na proporção exata, tornam a vida bem equilibrada e útil no reino de Deus.
Quando falta uma delas ou sua presença é reduzida, o resultado é desastroso,
não existe equilíbrio e poderes são desperdiçados.
Quase tudo que se escreve com sinceridade, quando
examinado de perto, percebe-se ser autobiográfico. Nós conhecemos melhor aquilo
que experimentamos. Este artigo não é uma exceção. Devo admitir francamente
que se
trata de autobiografia, pois o
leitor perspicaz descobrira a
verdade por mais que eu tente escondê-la.
Em resumo, poucas vezes fui chamado de covarde, mesmo
pelos meus inimigos mais cordiais, mas minha falta de moderação já foi
causa de
sofrimento a meus
amigos mais chegados.
Um temperamento extremado é
difícil de dominar e a tentação de fazer uso de métodos drásticos, imoderados,
no serviço do Senhor, é quase irresistível. Essa tentação é ainda fortalecida
pelo conhecimento de ser praticamente impossível encostar um pregador na parede
e fazê-lo engolir as suas palavras. Existe uma espécie de imunidade ministerial
conferida ao homem de Deus que pode levar Boanerges a fazer uso de uma
linguagem extravagante e irresponsável, a não ser que empregue medidas heróicas
para colocar a sua natureza sob o controle do espírito do amor. Falhei algumas
vezes nisto e sempre em meu detrimento.
O contraste entre os caminhos de Deus e os do homem é
visto novamente aqui. Em separado da sabedoria que a experiência penosa pode
fornecer, tendemos a alcançar nossos fins mediante o ataque direto, invadindo
o campo inimigo e ganhando a luta com um ataque de surpresa. Foi essa a atitude
de Sansão, e ela funcionou bem exceto por um pequeno descuido: destruiu o
vencedor juntamente com os vencidos! Existe sabedoria no ataque pelo flanco,
mas o espírito impetuoso geralmente a rejeita.
Foi dito a respeito de Cristo: "Não contenderá, nem gritará nem alguém
ouvirá nas praças a sua voz. Não esmagará a cana que brada, nem apagará a
torcida que fumega, até que faça vencedor juízo" (Mt 12:20). Ele alcançou
seus tremendos objetivos sem esforço físico excessivo e praticamente sem violência.
Toda a sua vida foi marcada pela moderação: todavia, foi dentre todos os homens
o mais corajoso, ousando enviar esta mensagem a Herodes que o ameaçava:
"Ide dizer a essa raposa que hoje e amanhã expulso demônios e curo
enfermos, e no terceiro dia terminarei". Existe nisso coragem consumada,
mas não desafio, nenhum sinal de desprezo, nenhuma extravagância em atos ou
palavras. Ele possuía coragem com moderação.
A falha em alcançar um equilíbrio entre essas
virtudes já provocou muitos males na igreja no correr do tempo, e o prejuízo é
tanto maior quando os líderes da mesma se envolvem neles. A falta de coragem é
um defeito grave s pode ser um verdadeiro pecado quando leva à transigência na
doutrina ou na prática. Ficar parado, a fim de manter a paz a todo custo,
permitindo que o inimigo fuja com os vasos sagrados do templo jamais pode ser o
comportamento do verdadeiro homem de Deus. A moderação levada ao extremo no que
se refere às coisas santas não é certamente uma virtude; mas a belicosidade não
vence as batalhas celestiais. A fúria do homem não exalta a glória de Deus.
Existe um modo correto de fazer as coisas, e ele jamais inclui a violência. Os
gregos possuíam um ditado famoso:
"A moderação é o melhor caminho"; e o provérbio simples do
agricultor americano: "devagar se
vai longe", contém uma rica e profunda filosofia.
Deus tem usado e certamente continuará usando os
homens apesar de sua falha em possuir tais virtudes em equilíbrio adequado.
Elias era homem corajoso; ninguém poderia duvidar disso, mas também não se
poderia afirmar ser ele homem paciente e moderado. Vencia a batalha de assalto,
pela provocação e não desprezava o uso da sátira e da ofensa, quando pensava
que isso poderia ajudar. Mas depois de confundir o inimigo ele passava para o
extremo oposto e caía no mais profundo desespero. É isso que acontece com as
naturezas extremadas, o homem de coragem sem moderação.
Eli, por outro lado, era homem prudente. Não sabia
dizer "não" nem mesmo para os de sua própria família. Apreciava a paz
sem fundamentos e a tragédia mais negra foi o preço pago pela sua covardia.
Ambos, Elias e Eli, eram homens bons, mas não souberam encontrar o meio-termo
ideal. Dos dois, o ardente Elias foi com certeza o maior. É penoso imaginar o
que Eli teria feito na posição de Elias. E eu teria piedade até de Ofni e
Finéias caso Elias fosse pai deles!
Isto nos leva logicamente a pensar em Paulo, o
apóstolo. Ele parece ter tido uma coragem praticamente perfeita, juntamente com
uma disposição paciente e uma tolerância realmente divinas. O que ele poderia
ter sido em separado da graça é visto na breve descrição dada a seu respeito
antes da conversão. Depois de ter ajudado a apedrejar Estêvão até a morte, saiu
perseguindo os cristãos, "respirando ainda ameaças e morte". Mesmo
depois de convertido fazia juízos sumários quando entrava em discussão sobre
alguma coisa. Sua rejeição de Marcos, por este ter abandonado o trabalho em
meio, foi um exemplo de como tratava os homens quando perdia a confiança
neles. Mas o tempo, os sofrimentos e uma intimidade crescente com o paciente
Salvador parecem ter curado esta falha no homem de Deus. Seus últimos dias
foram cheios de amor, tolerância e caridade. E isso deve acontecer com todos
nós.
É significativo o fato de a Bíblia não mencionar a
cura de qualquer covarde. Nenhuma "alma tímida" jamais se
transformou em homem corajoso, Pedro é algumas vezes citado como uma exceção,
mas nada existe em seu registro que faça ver nele uma pessoa tímida antes ou
depois do Pentecoste. Ele chegou a tocar a fronteira uma ou duas vezes, mas na
maior parte do tempo mostrou-se homem tão corajoso que sempre estava cm apuros
por causa de sua ousadia.
Como a igreja precisa desesperadamente de homens de
cora?em neste momento é sabido demais para que haja necessidade de repeti-lo. O
medo paira sobre a igreja como uma maldição antiga. Medo de viver, de perder o
emprego ou a popularidade, medo uns dos outros: esses são os fantasmas que
assombram os homens, os líderes da igreja moderna. Muitos deles, porém, ganham
reputação de corajosos repetindo coisas prudentes, seguras e batidas com
ousadia cômica.
A coragem consciente não é entretanto a cura.
Cultivar o hábito de falar francamente, pode simplesmente resultar em nos
tornarmos inconvenientes e causar muitos prejuízos. O ideal parece ser uma
coragem tranqüila que não percebe sequer a sua própria presença. Ela extrai
sua força a cada momento do Espírito interior e dificilmente se apercebe do
"eu". Uma coragem assim será também paciente, bem equilibrada e livre
de extremismos. Possa Deus batizar-nos com essa espécie de coragem.
A.W.Tozer
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