No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1:1.)
Qualquer homem de inteligência média, ainda que não
instruído das verdades do cristianismo, chegando a ler esse texto, certamente
concluirá que João tencionava ensinar que falar faz parte da natureza de Deus,
ou seja, Ele deseja comunicar seus pensamentos aos outros seres inteligentes. E
teria plena razão. A palavra (verbo) é o meio através do qual os pensamentos
são expressos — pelo que também a aplicação do termo "Verbo" ao Filho
eterno de Deus leva-nos a crer que a auto-expressão faz parte inerente da
divindade, e que Deus está sempre procurando falar de Si mesmo às Suas criaturas.
E a Bíblia inteira apóia essa idéia. Deus continua falando. Não somente falou,
mas continua falando. Por força de Sua própria natureza, Ele se
comunica continuamente. Enche o mundo com Sua voz.
Uma das grandes realidades que temos de levar em
conta, e com a qual nos vemos a braços, é a voz de Deus neste mundo. A hipótese
mais simples sobre a formação do universo, e a mais certa, é essa: "Ele
falou, e tudo se fez." A razão de ser da lei natural não é outra
senão a voz de Deus, imanente em Sua criação. E essa palavra de Deus, que
trouxe à existência todos os mundos criados, não pode ter sido a Bíblia,
porquanto esta não fora escrita nem impressa ainda, mas é a expressão da
vontade de Deus, manifesta na estrutura de todas as coisas. Essa palavra que
vem de Deus é o sopro divino que enche o mundo de potencialidade vital. A voz
de Deus é a mais poderosa força que há na natureza, e, na realidade, a única
força que atua na natureza, onde reside toda a energia pelo simples fato de que
a palavra de poder foi proferida.
A Bíblia é a Palavra escrita de Deus; e, por haver
sido escrita, está confinada e limitada pelas necessidades da tinta, do papel e
do couro. A voz de Deus, entretanto, é viva e livre como o próprio Deus.
"As palavras que eu vos tenho dito, são espírito e são vida." (Jo 6:36.)
A vida está encerrada nas palavras proferidas por Deus. A Palavra de Deus, na
Bíblia, só tem poder porque corresponde perfeitamente à palavra de Deus no
universo. É a voz presente no mundo que dá à Palavra escrita todo o seu poder.
De outro modo, estaria para sempre adormecida, aprisionada entre as páginas de
um livro.
Temos uma visão muito pequena e primitiva das coisas,
quando pensamos em Deus, no ato da criação, a entrar em contato físico com
essas coisas, a modelar, adaptar, e fabricar, como se fosse um carpinteiro. A
Bíblia ensina uma coisa totalmente diversa: "Os céus por sua palavra se
fizeram, e pelo sopro de sua boca o exército deles. . . Pois ele falou, e tudo
se fez; ele ordenou, e tudo passou a a existir" (Sl 33:6, 3). "Pela fé
entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o
visível veio a existir das cousas que não aparecem." (Hb 11:3.) Uma vez
mais, convém que nos lembremos de que Deus se refere aqui, não à Sua Palavra
escrita, à Bíblia, mas antes, à voz da Sua palavra. Isto se refere à voz que
enche antes o mundo, aquela voz que antecede a Bíblia em séculos e séculos;
aquela voz que não silenciou mais desde o início da criação, mas que continua a
soar, e alcança todos os recantos desse imenso universo.
A Palavra de Deus é viva e poderosa. No princípio Ele
falou ao nada, e o nada se tornou em alguma coisa. O caos a ouviu e se
fez ordem, as trevas a ouviram, e se transformaram em luz. "E disse Deus.
. . e assim se fez." Essas sentenças gêmeas, como se fossem causa e
efeito, ocorrem em todo o relato da criação, no livro de Gênesis. O disse explica
o assim se fez. O assim se fez é o disse, poso em forma de
presente contínuo.
Deus está aqui, e está sempre falando. Essas verdades
são o pano de fundo de todas as demais verdades bíblicas; sem elas estas
últimas não poderiam ser revelações de forma alguma. Deus não escreveu um livro
para enviá-lo através de mensageiros e ser lido à distância, por mentes
desassistidas. Ele "falou" um livro e vive em Suas palavras
proferidas, constantemente afirmando as Suas palavras e outorgando-lhes o poder
que elas têm, pelo que também persistem através de todos os séculos. Deus
soprou sobre o barro, e este se transformou em homem; Ele sopra sobre os
homens, e estes se tornam barro. "Porque tu és pó e ao pó tornarás"
(Gn 3:19) foi a palavra proferida quando da queda, mediante a qual decretou a
morte física de todo homem, e não foi necessário dizer mais nenhuma palavra. O
triste curso da humanidade, em toda a face da terra, desde o nascimento até à
sepultura, é prova de que Sua palavra original foi o bastante.
Ainda não demos atenção suficiente àquela profunda
declaração que lemos no Evangelho de João: "A verdadeira luz que, vinda
ao mundo, ilumina a todo homem" (Jo 1:9). Pode-se mudar à vontade a
pontuação, que a verdade inteira continua ali encerrada: a Palavra de Deus
afeta o coração de todos os homens, porque é luz para a alma. A luz brilha no
coração de todos os homens e a palavra ali ressoa, e não há como escapar dela.
Isso seria uma decorrência lógica do fato de Deus estar vivo e atuante neste
mundo. E João afirma que isto realmente acontece. Até mesmo aqueles que nunca
ouviram da Bíblia, já ouviram a pregação da verdade com clareza suficiente para
que não tenham mais desculpas. "Estes mostram a norma da lei, gravada nos
seus corações, testemunhando-lhes também a consciência, e os seus pensamentos
mutuamente acusando-se ou defendendo-se." (Rm 2:15.) "Porque os
atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria
divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos
por meio das cousas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis." (Rm
1:20.)
Essa voz universal de Deus era chamada de sabedoria,
pelos antigos hebreus, e dizia-se que estava em toda a parte investigando e
perscrutando toda a face da terra, buscando alguma reação favorável da parte
dos filhos dos homens. O oitavo capítulo do livro de Provérbios começa com as
palavras: "Não clama porventura a sabedoria, e o entendimento não faz
ouvir a sua voz?" O escritor sagrado, em seguida, pinta a sabedoria como
uma bela mulher, postada "no cume das alturas, junto ao caminho, nas
encruzilhadas das veredas". E faz ouvir a sua voz em todos os lugares, de
tal maneira que ninguém pode deixar de ouvi-la. "A vós outros, ó homens,
clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens." Então conclama os
simples e os néscios para que lhe dêem ouvidos. O que a sabedoria de Deus
requer é a reação espiritual favorável da parte dos homens, uma resposta que
ela sempre tem buscado, mas que raramente tem conseguido. A tragédia é que
nosso bem-estar eterno depende de ouvirmos,
mas nós temos
feito ouvidos moucos.
Essa voz universal sempre soou, e perturbou os
homens, mesmo quando não eram capazes de compreender a origem de seus temores.
Quem sabe se essa voz, derramando-se gota a gota no coração dos homens, não é a
causa oculta da consciência perturbada e do anseio pela imortalidade,
confessados por milhões de pessoas, desde o início da História? Não há o que
temer. Essa voz é um fato. E qualquer um pode observar como a humanidade tem
reagido em face dela.
Quando do céu Deus falou ao Senhor Jesus, muitos
homens que ouviram a voz explicaram-na como sendo fenômenos naturais. Diziam
ter ouvido um trovão. Esse hábito de apelar às leis naturais para explicar a
voz de Deus é a própria raiz da ciência moderna. Nesse universo que vive e
respira, há algo misterioso, por demais maravilhoso, por demais tremendo para
que qualquer mente o compreenda. O crente não exige explicações, mas dobra os
joelhos e adora, sussurrando: "Deus meu". O homem mundano também se
inclina, mas não para adorar. Inclina-se para examinar, para pesquisar, para
descobrir a causa e o funcionamento das coisas. O que ocorre é que estamos
vivendo na era secular. Estamos acostumados a pensar como cientistas e não como
adoradores. Sentimo-nos mais inclinados a pensar do que a adorar. "Foi
apenas um trovão!" exclamamos nós, e continuamos levando uma vida mundana.
Contudo, a voz divina continua ecoando, chamando. A ordem e a vida do mundo
dependem totalmente dessa voz, mas os homens estão por demais atarefados ou são
teimosos demais para dar-lhe qualquer atenção.
Cada um de nós já experimentou sensações impossíveis
de serem explicadas: um súbito senso de solidão, ou um sentimento de admiração
e espanto em face da vastidão universal. Ou, como que recebendo um raio de luz
de um outro sol, tivemos uma revelação momentânea de que pertencemos a um
outro mundo, e que nossa origem se explica em Deus. O que então sentimos,
ouvimos ou vimos, talvez tenha sido contrário a tudo quanto nos tem sido
ensinado nas escolas, ou esteja em total conflito com nossas crenças e
conceitos. Naquele momento, em que as nuvens se dissiparam e tivemos aquela
revelação pessoal, fomos forçados a afastar as dúvidas costumeiras. Por mais
que queiramos explicar essas coisas, penso que não estaremos sendo sinceros,
enquanto não admitirmos pelo menos a possibilidade de que tais experiências
venham da presença de Deus no mundo, bem como, de Seus persistentes esforços
para comunicar-Se com a humanidade. Não ponhamos de lado essa hipótese, por
julgá-la falsa.
Eu, particularmente, creio (e não me ressentirei se
ninguém concordar comigo) que tudo quanto de bom e de belo o homem tem
produzido neste planeta é resultado de sua resposta imperfeita e imaculada pelo
pecado, à voz criadora que ecoa por toda a Terra. Como explicar os filósofos
moralistas que tiveram elevados sonhos de virtude; os pensadores religiosos,
com suas especulações acerca de Deus e da imortalidade; os poetas e os
artistas, que da matéria criaram beleza pura e duradoura? Não basta dizer
simplesmente: "Ele foi um gênio". Pois, que é um gênio? Não seria
possível que um gênio fosse um homem que, "importunado" por essa voz,
esforça-se e luta freneticamente para atingir um objetivo que ele apenas
vagamente entende? O fato de que, na lida diária, os homens tenham perdido Deus
de vista, que até mesmo tenham falado ou escrito contra Deus, não destrói a idéia
que eu procuro demonstrar. A revelação redentora de Deus, nas Sagradas
Escrituras, é necessária para a fé salvadora e para a paz com Deus. Para que
esta inconsciente aspiração pela imortalidade leve o homem a uma comunhão
satisfatória com Deus, é necessário que ele confie no Salvador ressurreto.
Para mim, essa é uma explicação plausível para tudo que é excelente fora de
Cristo.
A voz de Deus é amiga. Ninguém precisa temê-la, a
menos que já tenha resolvido resistir a ela. O sangue de Jesus Cristo cobriu
não apenas a raça humana mas também toda a criação. "E que, havendo feito
a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas
as cousas, quer sobre a terra, quer nos céus." (Cl 1:20.) Nós podemos
falar, com toda segurança, de um céu que nos é propício. Tanto os céus como a
terra estão cheios da boa-vontade daquele que veio manifestar-se na sarça
ardente. O sangue santo de Cristo, na expiação, garante isso para sempre.
Quem quiser aplicar os ouvidos, ouvirá a todos dos
céus. Estamos numa época em que os homens decididamente não aceitam exortações
de bom grado, porquanto ouvir não faz parte do conceito popular da
religião. E nisto, estamos fazendo exatamente o contrário do que devemos. As
igrejas, de um modo geral, aceitam a grande heresia de que fazer barulho, ser
grande e ativa torna-as mais preciosas para Deus. Mas não devemos desanimar,
pois é a um povo atingido pela tormenta do último e maior de todos os conflitos
que Deus diz: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus." (Sl 46:10.) E ele
ainda diz o mesmo hoje, como se quisesse informar-nos de que nossa força e
segurança dependem não tanto de nossa agitação. mas de nosso silêncio e
serenidade.
Precisamos estar quietos para esperar em Deus. Seria
melhor se pudéssemos ficar a sós, com a Bíblia aberta à nossa frente. Se
quisermos, podemos nos chegar a Deus e começar a ouvi-lO falar ao nosso próprio
coração. Penso que para a média das pessoas a manifestação dessa voz será mais
ou menos assim: primeiramente, ouve-se um ruído como de uma presença a andar
pelo jardim. Em seguida ouve-se uma voz, mais inteligível, mas ainda não muito
distinta. Depois disto, vem um instante feliz em que o Espírito Santo começa a
iluminar as Sagradas Escrituras, e aquilo que até ali fora apenas um ruído, ou
quando muito uma voz, agora se torna em palavra calorosa, íntima e clara como
a palavra de um amigo muito caro. Depois é que vêm a vida e a luz, e, melhor de
tudo, a capacidade de ver, de descansar em Jesus Cristo e de aceitá-lo como
Salvador e Senhor.
A Bíblia jamais será um livro vivo para nós enquanto
não ficarmos convencidos de que Deus está articulado com seu próprio universo.
A transição de um mundo morto e impessoal para uma Bíblia dogmática é difícil
para a maioria das pessoas. Talvez admitam que devem aceitar a Bíblia
como a Palavra de Deus, e talvez até tentem pensar nela como tal; mas depois
descobrirão ser impossível crer que as palavras, escritas nas páginas da
Bíblia, se aplicam à sua vida. Um homem pode dizer com os lábios: "Estas
palavras foram dirigidas a mim", e, contudo, em seu coração sentir que
não sabe o que elas dizem. É, nesse caso, vítima de um raciocínio errado —
pensa que Deus permanece mudo em tudo o mais, e se manifesta apenas em seu
livro.
Acredito que grande parte de nossa incredulidade se
deve a um conceito errôneo a respeito das Escrituras. Deus está silencioso e,
subitamente, começa a falar em um livro. Terminado o livro, cai no silêncio
outra vez, e para sempre. Por isso, muitos lêem a Bíblia como se fora o
registro do que Deus disse quando estava com vontade de falar. Se pensarmos
desta forma, como poderemos confiar plenamente? O fato, contudo, é que Deus não
está calado, e nunca esteve. Falar faz parte da natureza de Deus. A segunda
pessoa da Trindade é chamada de Verbo (Palavra). A Bíblia é o resultado
inevitável da contínua manifestação de Deus. É a revelação infalível de Sua
mente, a nós dirigida, expressa em termos humanos, para que possamos
compreendê-la.
Penso que um novo mundo surgirá entre as
nebulosidades religiosas, quando nos aproximarmos da Bíblia munidos da idéia
de que se trata não somente de um livro que foi falado numa certa época,
mas que
ainda continua falando. Os
profetas sempre afirmavam:
é esta a substância moral que se compõe o chamado mundo
civilizado. Todo o ambiente está contaminado; nós o respiramos a cada momento e
bebemos dele juntamente com o leite materno. A cultura e a educação refinam
apenas superficialmente essas qualidades negativas, mas deixam-nas basicamente
intactas. Todo um mundo literário foi criado para defender a tese de que esta
é a única maneira normal de se viver. E isso se torna ainda mais estranho
quando percebemos que são justamente esses os males que tanto amarguram a
existência de todos nós. Todas as nossas preocupações e muitas de nossas
mazelas físicas originam-se diretamente dos nossos pecados. O orgulho, a
arrogância, o ressentimento, os maus pensamentos, a malícia, a cobiça — essas
são as fontes de todas as enfermidades que afligem a nossa carne.
Em um mundo como este, as palavras de Jesus soam de
um modo maravilhoso e totalmente novo, como uma visitação do alto. Foi bom que
Ele tivesse dito aquelas palavras, porque ninguém poderia tê-lo feito tão bem
quanto Ele, e nós deveríamos dar ouvidos à Sua voz. Suas palavras são a
essência da verdade. Ele não estava apenas exprimindo Sua opinião; Jesus jamais
apresentou opiniões Ele nunca fazia conjecturas; pelo contrário Ele sabia e
sabe todas as coisas. Suas palavras não foram, como as de Salomão, a súmula de
uma profunda sabedoria ou o resultado de uma cuidadosa observação. Ele falava
na plenitude da Sua divindade, e Suas palavras são a própria verdade. Ele era o
único que poderia ter dito "bem-aventurados", com a mais completa
autoridade, pois Ele é o bendito de Deus que veio a este mundo a fim de
conferir bênçãos à humanidade. Suas palavras foram apoiadas por feitos mais
poderosos do que os de qualquer outra pessoa da Terra. Obedecê-las é prova de
grande sabedoria.
Como geralmente acontecia, Jesus empregou o vocábulo
"mansos" numa frase curta e resumida, e só algum tempo depois foi
que passou a explicá-lo. No mesmo Evangelho de Mateus, Ele nos fala novamente
nessa palavra e aplica-a à nossa vida. "Vinde a mim todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e
aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso
para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."
(Mt 11:28-30.) Aqui vemos dois conceitos opostos: fardo e descanso. Este fardo
não pesava somente sobre aqueles que ali se achavam, mas sobre toda a raça
humana. Não se trata de opressão política, nem de pobreza. nem de trabalho
árduo. É um problema bem mais complexo do que isso. Os ricos e os pobres o
sentem da mesma forma, porque é um estado do qual nem riquezas nem lazeres
podem nos libertar.
O fardo que pesa sobre a humanidade é grande e
esmagador. O termo empregado pelo Senhor Jesus indica que é um peso que levamos
conosco, ou uma fadiga que chega à exaustão. O descanso é simplesmente o alívio
que sentimos quando essa carga nos é tirada dos ombros. Não se trata de algo
que fazemos, mas de algo que nos é proporcionado, quando deixamos de fazer
outra coisa. A Sua própria mansidão — esse é o nosso descanso.
Façamos um exame desse fardo. Ele se localiza em
nosso íntimo. Chega primeiramente ao coração e à mente, e atinge o nosso corpo
de dentro para fora. Primeiramente há o fardo do orgulho. Nosso esforço
para resguardar o amor-próprio é realmente exaustivo. Se procurarmos examinar
nossa vida, verificaremos que muitas das nossas aflições têm origem no fato de
alguém ter falado de modo depreciativo a nosso respeito. Enquanto o homem se
considerar um pequeno deus, o qual deve tributar sua lealdade, haverá sempre
aqueles que se deleitarão cm afrontar seu ídolo. Como, então, esperamos ter
paz interior? O veemente esforço que o coração envida para defender-se contra
as injúrias, para proteger a sua honra sensível, contra toda opinião
desfavorável da parte de amigos e adversários jamais permitirá que sua mente
goze paz. Se persistirmos nessa luta, com o passar dos anos, o fardo se tornará
simplesmente intolerável. No entanto, os homens continuam levando essa carga
pela vida afora, desafiando cada palavra proferida contra eles, ressentindo-se
contra toda crítica, magoando-se profundamente com a mais leve indiferença,
revolvendo-se insones cm seus leitos, se outros forem preferidos em lugar
deles.
Todavia ninguém é obrigado a carregar um fardo pesado
como esse. Jesus nos convida a descansar nEle. e a mansidão é o método
aplicado. O homem manso não se importa se alguém for maior do que ele, porque
há muito compreendeu que as coisas que o mundo aprecia não são importantes para
ele, e não vale a pena lutar por elas. Pelo contrário, desenvolve para consigo
mesmo um interessante senso de humor e passa a dizer: "Ah, então você foi
esquecido, hein? Passaram você para trás, não é? Disseram até que você é um
traste sem importância? E agora você está ressentido porque os outros estão
dizendo exatamente aquilo que você mesmo tem dito sobre si? Ainda ontem você
disse a Deus que não representa nada, que é apenas um verme que vem do pó. Onde
está a coerência? Vamos, humilhe-se, deixe de preocupar-se com o que os homens
pensam."
O homem manso não é covarde nem vive atormentado por
reconhecer sua própria inferioridade. Pelo contrário, seu espírito é valente
como um leão e forte como um Sansão;
porém, deixou de iludir a si próprio. Reconheceu que é correta a avaliação
que Deus faz de sua própria vida. Compreende que é fraco e necessitado tal como
Deus afirmou que ele é; mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo sabe que, aos olhos
de Deus, é mais importante que os próprios anjos. Nada representa em si mesmo,
mas em Deus, tudo. Esse é o seu lema. Sabe perfeitamente bem que o mundo jamais
o verá como Deus o vê, e por isso deixou há muito de importar-se com os conceitos
dos homens. Sente-se plenamente satisfeito em deixar que Deus restabeleça os
seus valores. Aguarda pacientemente o dia em que todas as coisas, serão
julgadas, e o seu verdadeiro valor será reconhecido por todos. Só então é que
os justos resplandecerão no reino de seu Pai. Ele está disposto a esperar esse
dia.
Nesse ínterim, terá encontrado descanso para sua
alma. Se andar em mansidão, ele ficará satisfeito em permitir que Deus o
defenda. |á não precisa lutar para defender o seu "eu", porque
encontrou a paz que a mansidão proporciona.
Outrossim, ficará livre do fardo do fingimento.
Quando digo fingimento não me refiro à hipocrisia, mas o desejo muito comum
no homem de mostrar ao mundo o seu lado melhor, ocultando sua verdadeira
pobreza e miséria internas. Pois o pecado tem usado conosco de muitas
artimanhas traiçoeiras, e uma delas foi incutir em nós um falso sentimento de
vergonha. Dificilmente encontramos alguém que queira ser exatamente o que é,
sem tentar forjar uma aparência exterior para o mundo. O temor de ser
descoberto corrói o coração humano. O homem de cultura sente-se perseguido pelo
receio de algum dia aparecer um homem mais culto do que ele. O erudito teme
encontrar outro mais erudito do que ele. O rico vive preocupado, sempre com
receio de que suas roupas, seu automóvel ou sua casa algum dia pareçam baratos
em comparação com as posses de outro homem mais rico do que ele. Os motivos que
impulsionam a chamada "alta sociedade" não são mais nobres do que
esses, e as classes mais pobres, em seu próprio nível, também, não são muito
melhores em suas atitudes.
Ninguém deve menosprezar essas verdades. Esse fardo é
real, e, pouco a pouco, ele mata as vítimas dessa maneira de viver nociva e
antinatural. Esta mentalidade adquirida através dos anos faz com que a mansidão
autêntica nos pareça irreal como um sonho, e distante como as estrelas. Ê
justamente às vítimas dessa enfermidade corrosiva que o Senhor Jesus diz:
"Deveis tornar-vos como criancinhas." Isso porque as criancinhas não
fazem comparações dessa natureza, mas alegram-se naturalmente com aquilo que
possuem, sem se incomodar com o que as outras crianças possam ter. Somente
quando se tornam maiores, e o pecado começa a afetar seus corações, é que
aparecem o ciúme e a inveja. Daí por diante são incapazes de desfrutar do que
possuem, se alguém tiver algo maior ou melhor. E desde essa tenra idade o fardo
passa a pesar sobre suas almas, e nunca mais as deixa, até que o Senhor Jesus
lhes dê a libertação.
Outro pecado que representa uma carga pesada para o
homem é a artificialidade. Estou certo de que a maioria das pessoas vive
com um receio íntimo de que algum dia acabarão se descuidando e, talvez, um
amigo ou inimigo consiga ver o interior de suas almas vazias e pobres. Dessa
forma, elas vivem numa constante tensão. As pessoas mais inteligentes vivem
preocupadas e alertas, com medo de serem levadas a dizer algo que pareça vulgar
ou estúpido. As viajadas receiam encontrar algum Marco Polo que lhe fale de
algum lugar remoto, onde jamais estiveram.
Essa condição antinatural faz parte de nossa triste
herança de pecado; em nossos dias, entretanto, o problema é agravado pelo nosso
modo de viver. A propaganda baseia-se quase inteiramente nesse hábito de
preocupar-se com a aparência externa. Oferecem-se "cursos" sobre este
ou aquele campo do saber humano, os quais apelam claramente para o desejo que a
vítima tem de se sobressair. Vendem-se livros, inventam-se vestes e cosméticos,
brincando continuamente com esse desejo que o homem tem de parecer o que não
é. A artificialidade é uma maldição que desaparece no momento em que nos
ajoelhamos aos pés do Senhor Jesus e nos rendemos à Sua mansidão. Daí para a
frente não nos incomodaremos com o que as pessoas pensam a nosso respeito,
contanto que Deus nos esteja aprovando. Então o que somos será tudo; e
o que parecemos ser descerá na escala de valores das coisas que nos interessam.
Afastado o pecado, nada temos de que nos possamos envergonhar. Somente o nosso
desejo de prestígio é que nos faz querer parecer aos outros aquilo que não
somos.
O mundo inteiro está a ponto de sucumbir sob esse
fardo tremendo de orgulho e dissimulação. Ninguém pode ser liberto dessa carga
a não ser através da mansidão de Cristo. Uma racionalização inteligente pode
ajudar, mas muito pouco, pois esse hábito é tão forte, que, se o abafarmos
aqui, ele surgirá mais adiante. Jesus diz a todos: "Vinde a mim todos os
que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. "O descanso
oferecido por ele é o descanso da mansidão, aquele alívio bendito que sentimos
quando admitimos o que realmente somos, e deixamos de lado todo o fingimento. É
preciso bastante coragem a princípio, mas a graça necessária nos será dada,
pois veremos que estamos partilhando esse outro jugo com o Filho de Deus. Ele
mesmo o chama de "meu jugo", e leva-o ombro a ombro conosco.
Senhor, torna meu coração como o
de uma criança. Livra-me do impulso de competir com os outros, buscando posição
mais elevada entre os homens. Desejo ser simples e ingênuo como uma criança.
Livra-me das atitudes fingidas e da dissimulação. Perdoa-me por haver pensado
tanto em mim. Ajuda-me a esquecer a mim mesmo e a encontrar minha verdadeira
paz na Tua contemplação. A fim de que possas responder a esta oração, eu me
humilho perante Ti. Coloca sobre mim Teu fardo suave do autodesprendimento,
para que eu possa encontrar descanso. Amém.
A.W.Tozer
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